Zé Roraima
Perfil Criativo
ZÉ RORAIMA, MÚSICO FEITO DA MISTURA DE SONORIDADE PLURAL
Em 1983, quem sabe guiado pelo fato de a vida ser a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida, Zé Roraima chegou a Teresina. Tinha 21 anos e um percurso de vidas pessoal e artística longo: saiu de Pacaraima (RR), na fronteira com a Venezuela, onde nasceu, em 1962, para morar com a família em Gurupi, então no Estado de Goiás, hoje Tocantins, mudando-se para o interior de São Paulo na juventude. Tinha alma nômade e no Piauí encontrou âncora e muitos caminhos musicais.
A música no cantor e compositor é certamente um encontro casual, mas que deu liga de cara quando ganhou uma sanfona de oito baixos e começou a tirar música. Tinha cinco anos de idade, sem vivências nem influências musicais familiares. Ainda assim conseguia descobrir e tocar algumas notas sozinho, como “Asa Branca” e “Parabéns pra Você”.
O violão parceiro de agora nas composições solo e com outros músicos somente vai acontecer na vida de Zé Roraima dez anos depois do contato com a sanfona – e numa escola agrícola em Santa Rita do Passa Quatro, interior de São Paulo. O cultivo deu lugar à cultura na cabeça do jovem roraimense, que começou a compor, participar de festivais e a se apresentar em clubes, bares e restaurantes. A arte virou ganha-pão.
Nos bailes da vida ou num bar em troca de pão, Zé Roraima pôs o pé na profissão de tocar um instrumento e de cantar. Assim, para se sustentar, no começo dos anos 1980 se apresentava pelo interior de São Paulo até que contratado pelo produtor Elpídio Varize para a inauguração do restaurante La Grelha, no Centro de Convenções de Teresina. Foi uma virada de chave que o levou à Banda Ônix, do Grupo Claudino, onde atuou por sete anos.
Essa trilha pela música no Piauí o levou a gravar nove discos, entre álbuns cheios e Eps, tanto solo quanto com banda ou com outros parceiros, e a atuar na composição e na produção de trilhas para peças de teatro, documentários, programas de TV, de rádio e peças publicitárias. Tem suas digitais em muitas composições presentes nos repertórios de outros artistas, piauienses e de fora do estado que o adotou e foi por ele adotado.
Zé Roraima se enquadra na categoria de um músico ou artista múltiplo, o que pode levar a se indagar sobre se há uma complexidade no seu processo criativo. Porém, ele diz que não segue uma regra ou fórmula, vai seguindo a intuição, aproveita-se das inspirações que surgem, independentemente do lugar ou do estado de espírito em que se encontra. Isso só não ocorre quando é chamado a pôr música em letras e poemas que lhe são enviados por seus muitos parceiros musicais. Neste caso, a transpiração supera a inspiração.
Há, no entanto, um panteão de nomes inspiradores na vida dele – como de outros compositores. Quem inspira Zé Roraima são nomes de gigantes da MPB, seu campo amplo de composição: Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano, Vinícius, Tom Jobim, Noel Rosa, Dominguinhos, Marisa Monte, Chico César, Zeca Baleiro Paulinho da Viola, Arlindo Cruz, Jorge Ben Jor, Rita Lee, além do som pop dos Titãs, de Lulu Santos e dos Paralamas do Sucesso.
Ao longo de 40 anos no Piauí, encontrou e admira compositores, a maioria deles parceiros em várias canções. Na lista dos compositores piauienses que mais admira, Glauco Luz, Geraldo Brito, Anderson Nóbrega, Machado Jr., Mirton, Zé Quaresma, Fátima Castelo Branco, Teófilo e Monise Borges. Assinou música com quase todos dessa lista, mas os parceiros mais frequentes são Paulo José Cunha, Viviane Maranhão, Durvalino Filho, Machado Jr, Glauco Luz e Jabuti Fonteles.
Assinou canções ainda com Climério Ferreira, Torquato Neto, Francisco Magalhães, Emerson Boy, Will Silva, Viviane Maranhão, Cineas Santos, Rubens Nery, Fábio Nóbrega, Arimatan Martins, Luri de Almeida, Maneco Nascimento, Paulo Moura, Thiago E, Ricardo Totte e com os cearenses, Luiz Fidelis, Marcus Dias, Aloísio Martins e Dalwton Moura.
Tantos encontros musicais, com pessoas com diferentes modos de compor, de idades e origens diversas, fazem com que a música de Zé Roraima seja como rizoma, que se espalha entre ritmos e cadências, sempre muito solar e diversa, como ficou evidente em no espetáculo Brasilianas, de 2023, para celebrar seus 40 anos de carreira no Piauí, com um programa musical com 13 composições inéditas e autorais que mergulham no Brasil profundo e bebem na fonte do xote, do frevo, do boi, do choro, do samba, do samba-rock e do xaxado.
Zé Roraima, como ele mesmo se define, é bom produto de uma mistura de sonoridade plural.
Músicas
Composições Inéditas
A Saudade Acorda Cedo - Zé Roraima e Paulo José Cunha
Inhuma - Zé Roraima e Cristiane Lago
Aquela flor - Zé Roraima e Adelson Viana
Imagens / Encartes