Viriato Campelo
Perfil Criativo
VIRIATO CAMPELO E A TRAMA POÉTICA INTERLIGANDO INTERESSES ARTÍSTICOS
Viriato Campelo nasceu em Teresina e na primeira infância viveu na zona Norte da cidade, perto do cemitério São José. Suas memórias de infância incluem as lembranças de um prostíbulo próximo da linha férrea e que por isso levava o óbvio e ferroviário nome de Cabaré dos Trilhos. Havia também a penitenciária, onde atualmente fica atualmente o Ginásio Verdão, situada atrás o estádio municipal Lindolfo Monteiro e uma igreja católica, de Santa Teresinha, hoje não mais existente.
O cenário de Teresina de sua infância, descrito por Viriato Campelo com cores de lirismo, poderia fazê-lo também um romancista ou um professor, porque a educação era um norte exigido pelo pai, juiz e depois desembargador Tomaz Campelo, como bem essencial à construção das pessoas. Assim, foi a educação em casa, com rigidez de um professor aplicado, o pai, que recebeu antes de a música envolvê-lo. Mas certamente não seria chegado à música sem o percurso do saber educacional, que o fez médico, doutor em Medicina, professor.
Embora músico não pudesse ou devesse ser – pelo menos por formação, já que no Colégio Diocesano, onde estudou, estava direcionado às ciências, foi para lá que se encaminhou por gosto e bom gosto. Também por ser esse um caminho natural de quem cedo viu poesia nos caminhos de sua cidade.
Formou-se médico, mas a alma de artista musical, despertada bem antes, o encaminhou para as sendas musicais, porque já nos primeiros anos de vida entendeu-se como bom ouvinte e gostar de música deu-se nele natural como o ato de respirar.
Devia também haver conspiração cósmica para que a música invadisse o espaço de viver de Viriato, porque quando foi ser professor ministrando aulas particulares, o dinheiro que ganhou foi logo direcionado a comprar uma vitrola. Era o instrumento de ouvir toda qualquer música, a popular brasileira, a mexicana, a francesa, a italiana, os standards norte-americanos. No que se ouve, se aprende, se aprecia mais, se guarda melhor todo o conhecimento o musical, que com Viriato se fez logo que, aos dez anos, manteve criou as primeiras amizades na escola, com gente que também gostava de ouvir e fazer música.
A composição viria como uma consequência das vivências musicais e das experiências calcadas na realidade citadina. Em 1974, quando estudava Medicina, a cultura musical o fez participar dos festivais na Universidade Federal do Piauí e o levou à amizade e parceria com Geraldo Brito. Surgia “Presença de Agora”, que Laurenice França interpretou.
A poesia e a música são uma trama que vai levando a pessoa a conhecer e a se interessar mais por essas duas formas de arte, diz Viriato Campelo, ao descrever a sua relação com a composição, que o levou à obra de Torquato Neto, para, junto a Geraldo Brito, envolver-se no espetáculo Nortristeresina, uma palavra “torquatiana”, que Viriato explica não exprimir tristeza, mas amplidão de sentidos, o que pode ser muita coisa na trama poética que vai levando a pessoa a conhecer mais e mais poesia na medida em que a consume.
Assim, desde a infância e por todo seu percurso até aqui, Viriato Campelo encaminhou-se pelo gosto dos grandes compositores brasileiros, sobretudo da segunda metade do século XX, entre os quais destaca Caetano Veloso, Chico Buarque Gilberto Gil, Tom Jobim e Edu Lobo e, claro Torquato Neto, que descreve bem mais que somente compositor, mas um artista completo, a despertar sentidos de inovação nos mais variados campos da arte e da cultura.
Com essa propensão a buscar trama na poesia, interligando interesses literários, artísticos e musicais, nos anos 1980 Viriato se aproximou e conviveu com alguns dos mais representativos nomes da música popular e da poesia brasileiras, o que incluiu Caetano Veloso a Waly Salomão, Zé Miguel Wisnik, Augusto de Campos, Antônio Cicero, Carlos Rennó.
Interligar-se à poesia e a outros poetas deu a ele um bom número de composições, com uma diversidade de parcerias, incluindo o amigo George Mendes, que trilha com Viriato a dedicação em ampliar a visibilidade sobre Torquato Neto. Também compôs com Geraldo Brito, Ronaldo Bringel, Mirton, Rubens, Teófilo Lima, Edvaldo Nascimento, Paulo Batista e com o já falecido cantor e compositor Rubens Lima, um gentleman que gostava da companhia de Cole Porter.
Seu mais recente trabalho, o álbum “Jardim das Delícias” evidencia sua diversidade nas composições, pois nele assina canções com todos esses amigos, além de Laurenice França, a primeira intérprete de suas composições, e com José Quaresma, de uma geração bem posterior, o que leva à ideia da composição como trama que se espalha no espaço e no tempo, unindo pessoas de diferentes origens e gerações.
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