Vagner Ribeiro

Vagner Ribeiro

Perfil Criativo

VAGNER RIBEIRO, CANTOU A ALDEIA LONGE DELA, VOLTOU E SEGUE BRILHANDO

O destino gosta de pregar peças e faz trama para costurar a vida e a arte. É possivel que assim tenha feito com Vagner Ribeiro, que nas andanças que lhe permitiram a arte musical terminou na terra de outro Wagner, o compositor alemão.

Devia bem ser o destino a tramar para que Vagner Ribeiro se fizesse músico, porque ele nasceu filho de um quitandeiro em Piripiri, 52 anos atrás, em 1973, e de musicalidade só tinha o avô que tocava violão eventualmente. Mas havia a admiração por andar no mundo das artes, resultado da ação de um tio, que partiu da cidade junto com o circo.

O tio que fugiu com o circo é uma história encantadora que perpassa universos infantis no Nordeste rural, mas no caso de Vagner era algo real. O tio artista o fez aprender a tocar, dedilhando no violão o choro de Dilermano Reis e de outros violonistas brasileiros. O tio ensinou também que ouvir é aprender.

Ele aprendeu e ensinou. Em sua trajetória artística e profissional, foi o regente do Coral da Escola de Música de Teresina, por quase dez anos, entre 1999 a 2008 e educador musical no Colégio Diocesano, de 1997 a 2012. Atualmente, ensina no Instituto Federal do Piauí – IFPI.

Entre idas e vindas, cantando sua aldeia, foi para longe e voltou – tendo levado muitas e trazido mais ainda cargas de musicalidade, que fizeram deles um dos integrantes de um dos mais afinados grupos de coro do Piauí, o Ensaio Vocal e líder da banda Valor de Pi, não o 3,14159, mas a inteireza do estado onde ele nasceu e de onde cedo alçou voo para muito longe, o Piauí, palavra com sonoridade única,

Muito jovem, quando morava em Alagoinhas (BA), conheceu um músico suíço que o convenceu a ir para a Europa. Foi com a cara e a coragem, falando somente o básico em inglês, para se identificar e dizer sua origem territorial. Como na Alemanha Wagner é sobrenome, virou Antônio Ribeiro, “from Brazil”. Fixou-se inicialmente na França, mas trabalhou em vários países.

Com visto precário, passou a percorrer outros países. Foi para Barcelona, na Espanha e depois teve uma experiência na Romênia, que fala um idioma neolatino em uma região de línguas eslavas. Achou parecido com o Brasil, não pelo clima, mas pelas paisagens humanas e conheceu o país mais que boa parte do país natal, grande demais até mesmo para os brasileiros darem conta de conhecer de perto – o que certamente fez com que Vagner voltasse após a viagem pela Europa, que o levou até a um convento, onde percebeu a não vocação sacerdotal.

Com Vagner a clássica ideia “tolstóiana” de cantar sua aldeia é cantar o mundo funcionou numa versão inversa: primeiro, viu o mundo e depois cantou a aldeia. Assim, narra que o fato de conhecer sociedades e culturas bem diversas e distantes, além de materialmente mais ricas, o fizeram pensar mais em sua terra, em sua própria cultura, em quanto isso era rico, bom, diferente. Mais: imaginou que se podia admirar uma cultura diversa, pessoas distantes poderiam admirar sua própria cultura. Seguiu o que leu na prosa do filósofo português, Eduardo Lourenço, para quem a pessoa só amadurece quando tem um olhar exterior à cultura dela.

Por isso, ao sair, ao viajar pela Europa, ao olhar o Piauí de longe, no silêncio de sua própria cultura, ele pôde percebê-la melhor. Sofreu o banzo daquilo do qual se afastou e refez a percepção íntima e pessoal de sua própria cultura – fazendo-se na atualidade um arrimo forte em defesa e argamassa de permanente elevação do edifício cultural de que é parte.

Essa percepção surge não apenas pela distância, mas pela diversidade em que a lonjura física da terra natal o colocou, porque na Europa conviveu com africanos, indianos, indonésios, filipinos… Também com eles aprendeu. Hoje, como já dito, ensina.

Vagner é agora cidadão do mundo fixado em Teresina, onde seu trabalho musical está enraizado de modo profundo na cultura popular do Piauí. Segue num trabalho amplo de professor, músico, articulador cultural, criador de um evento grandioso e belo, a Procissão das Sanfonas, um artista que prolonga as existências culturais que poderiam se apagar se não percebidas à distância.

 

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