Torquato Neto
Perfil Criativo
TORQUATO NETO VIVE TRANQUILAMENTE TODAS AS HORAS DO FIM
Uma obra musical, se de qualidade o bastante para fazê-la clássica, fica perene, eterniza-se e torna imortal aquele que a fez. O autor poderá até perecer fisicamente, mas estará imortalizado pelo que fez. Se morre jovem e não se registram dele, por isso mesmo, a imagem progressiva do envelhecimento que precede a finitude biológica, permanece não somente imortal, mas jovem no nosso imaginário.
Essa parece ser a condição de se olhar para o compositor Torquato Neto. Imortalizou-se pela obra musical, poética, jornalística, por suas aventuras cinematográfica e até por quase ausência de sua voz gravada. Na ausência de seu envelhecimento biológico, a imageme que se tem dele é de alguém permanente e transgressoramente jovem.
Sabe-se de Torquato Pereira de Araújo Neto nascido em Teresina em 9 de novembro de 1994 e morto no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1972, menos de 24 horas após completar 28 anos. Seguiu a trilha de outros tantos de sua geração que partiram cedo – como Janis Joplin, aos 27 anos em 1970; Jim Morrison, aos 27 anos, em 1971; e Jimi Hendrix, aos 28 anos, em 1970 e com quem um ano antes, em 1969, Torquato teve uma longa conversa. Todos eles estão imortalizados com uma imagem jovem projetada agora e no futuro.
Manter-se jovem para pessoas como Torquato Neto certamente não foi escolha, mas consequência de sua morte prematura – e do muito que deixou para ser explorado como trabalho não concluído nem divulgado. A juventude também está em perceber que muito do que ele fez segue atual, inédito ou renovável pelas possibilidades de ser relido ou ressignificado.
Há base nessas possibilidades porque Torquato nasce não apenas de uma inquietação permanente que todo artista tem – em alguns, a seu exemplo, mais que em outros. Bases de leitura de clássicos – Machado de Assis e William Shakespeare, para ficar em dois dos mais celebrados; na inconformidade política que o faz ser desligado de uma escola por pensar fora da caixa numa Teresina que, em 1958, via com maus olhos atividades políticas de um adolescente de 15 anos.
Torquato, que jovem se foi, bem mais jovem se fez ele mesmo, porque aos 18 anos foi para Salvador estudar, mas a chama forte da cultura o fez conhecer logo duas pessoas o fariam um artista que experimentava todas as linguagens: Gilberto Gil, como quem inventaria o Tropicalismo, e Gláuber Rocha, de quem foi assistente no filme “Barravento”, lançando-o nas experimentações “cinema-novistas”. No mesmo ano de 1961, fez-se ator no filme “Moleque de rua”, com trilha assinado por Caetano Veloso, também outro parceiro na invenção do movimento tropicalista.
O Torquato que de uma rua em cujo curso passa a memória e que lembra histórias de um tempo que não acaba, não olhava só para o lado de lá do rio Parnaíba, perto de onde ele morava em Teresina. O mundo era um lugar para ele explorar e o fez, falando fluentemente inglês, francês e espanhol. Mas o português nativo, com a qual lapidou palavras, bastou para chegar ao Rio de Janeiro, para estudar e fazer arte – incluindo mais um filme, como figurante em “Canalha em crise”, do cineasta piauiense Miguel Borges, com Joffre Soares e Tereza Rachel. Tinha então 20 anos.
O jovem Torquato parecia movido por gana de viver, trabalhar, produzir coisas em ritmo alucinante. Trabalhou em jornais, gravadoras e agências de publicidade. Em 1965, com somente 21 anos, retomou a amizade e iniciou parcerias com Gilberto Gil e Caetano Veloso, enquanto trabalhava numa agência de notícias do aeroporto do Galeão, no jornal “Correio da Manhã”, onde fez crítica de cinema no suplemento “Plug; no suplemento literário do Jornal dos Sports, “O Sol”, no qual assinou a coluna “Música brasileira”.
Com 23 anos, em 1967, enquanto desenhava a Tropicália com o breviário “Tropicalismo para principiantes”, casou-se com Ana Maria Santos – e, sendo jovem com responsabilidades de uma casa, até 1968 atuou como diretor de Relações Públicas da gravadora Phillips, fazendo divulgação e escrevendo textos sobre os artistas da casa.
Seguia com passos decididos a picada aberta na selva da indústria cultural para propor criar-se uma música pop autenticamente brasileira, “sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido.”
Nada fácil num país sob as amarras da censura de uma ditadura recém–inaugurada, onde certamente não pôde tirar do campo das ideias o roteiro que escreveu com José Carlos Capinam para o programa roteiro “Vida, paixão e banana do tropicalismo”, que teria direção de José Celso Martinez Correia. Era juventude demais e transgressão de mais ainda.
Algo como um exílio voluntário foi uma opção para um Torquato Neto e ele se mandou para Londres em um navio cargueiro, em 9 de dezembro de 1969, junto com o amigo Hélio Oiticica, quatro dias antes de a ditaduramandar às favas os escrúpulos da consciência, escancarando-se com o Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que permitiu a prisão e deportação dos seus amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Depois de Londres, mudou-se para Paris, que todos chamam de cidade-luz, mas que o jovem Torquato preferiu descrever como uma festa chata – uma percepção possivel para uma pessoa que depois voltaria ao Rio de Janeiro, teria seu único filho, Thiago, em março de 1970, atuaria como ator em 1971, no papel principal do filme “Nosferatu no Brasil”, de Ivan Cardoso, com quem também fez “A múmia volta a atacar” e “O padre e as moças”.
Quando em 1971 esteve em Teresina e resolveu tratar da saúde mental, não perdeu de vista a arte cinematográfica, pois teve outra experiência como ator. Convidado por Carlos Galvão, que publicava um jornal chamado “Gramma”, (não o de Havana), atuou no papel principal no filme “Adão e Eva no paraíso do consumo” – registrado em super-8. No mesmo ano, esteve no curta-metragem “Helô e Dirce”, de Luiz Otávio Pimentel.
A vida dele era efetivamente efervescente, porque entre 1971 e 1972, assinou no jornal Última Hora, de Samuel Wainer, uma coluna diária, “Geleia Geral”. Lá está muito de sua alma, do que pensamento vivo e imortal. Quando quis – e isso era muito próprio nele – deixou de escrever. Certamente não por impulso juvenil, mas por escolha que a consciência lhe impunha, afinal, como disse em carta para o amigo Hélio Oiticica: “Não tenho escrito nem nada nem pra ninguém”.
Escrevia para quem, então? Para si e isso representa escrever para o mundo. É bem isso que se poderá perceber em um trabalho que é quase epílogo da vida terrena dele na face telúrica de sua ligação a Teresina, quando escreveu e dirigiu o filme “O Terror da Vermelha” – referência ao bairro na zona sul de Teresina. Foi sua única experiência em direção de super-8. Filmado em 1972, o curta-metragem só seria montado em 1973 por Carlos Galvão, trazendo como personagem principal um homem que volta a sua cidade natal (Teresina) e mata os antigos amigos.
É possivel que a morte dos amigos por assassinato em um filme fosse uma morte simbólica de alguém que morreria de fato naquele ano de 1972 e deixaria amigos em orfandade. Contudo quem se manteve vivo cuidou fazer o jovem Torquato ficar perenemente vivo, o que se deu inicialmente com a publicação da revista “Navilouca”, que reunia poetas da dita “Geração Marginal”, no início dos anos 70, publicada somente em 1974; com o livro póstumo “Os últimos dias de Paupéria”. Idealizado em 1973 por Waly Salomão e pela viúva de Torquato, Ana Maria Silva de Araújo Duarte, reunindo poesias, letras e textos editados na coluna do jornal “Última Hora.
Torquato, assim, segue o mesmo homem jovem que propôs, assertivamente:
“eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim”.
Músicas
Imagens / Encartes