Paulo Moura

Paulo Moura

Perfil Criativo

O traço que virou verso

Antes de aprender a escrever, Paulo Fernandes Moura desenhava. Aos 14 anos de idade,incentivado pela avó paterna Ana Teresa, começou a trabalhar no jornal O Dia, em Teresina, como paginador e, em pouco tempo, tornou-se diagramador e chargista. A charge exige o que a poesia também exige: dizer muito em pouco espaço, sem esticar a piada nem explicar o traço, para não perder o timing. Passaram-se mais de quatro décadas entre aquele primeiro desenho publicado e os poemas e letras musicais que hoje compõem a sua produção. Mudou somente o instrumento.

Nascido em Campo Maior-PI, em 14 de abril de 1964, Paulo Moura construiu carreira como chargista, editor de arte e ilustrador nas redações dos principais jornais de Teresina: O Dia, Jornal da Manhã, Diário do Povo e Correio do Piauí.

Ainda na juventude, conquistou os prêmios de primeiro lugar no Salão de Humor do Piauí em charge (1984), cartum (1986) e menção honrosa em Cartum (1994). Ganhou o primeiro lugar no concurso de logotipo para a Fundação Municipal de Saúde, da PMT (1988). Publicou livro de charges e cartuns Traçando Todas (1986), pela Edições Corisco e As lições de um Aprendiz Maçom (2019), Nº 27 da Coleção Século XXI da Academia Piauiense de Letras. Participou das coletâneas de poemas Baião de Todos – Edição comemorativa 20 anos (2016); O Rio – Coletânea de poemas sobre o Parnaíba (2022), ambos editados pela Fundapi, e Haicai do Japão ao Sertão (2025) organizado por José de Nicola e CineasSantos, pela Oficina da Palavra.

Compositor letrista, tem canções gravadas ao lado de Roraima, Osnir Veríssimo, Yuri Raphael, Mike Soares e Frank Almendra. A lista de produção é extensa. O que não consta nessa lista é como o poema/letra musical chega. Chega pronto, ou quase, diz Paulo Moura que descreve o processo nãocomo escrita, mas como captura em que uma frase, uma imagem, um verso inteiro pousa na mente de repente, no meio de outra tarefa, numa conversa, num silêncio qualquer e precisa ser anotado antes que se vá, enfatiza. Ele chama esses fragmentos de “passarinhos”. Alguns viram poema ali mesmo, compostos de um fôlego só. Outros ficam meses à espera, guardados como semente, até que apareça o resto do corpo que os complete. Não há fórmula para saber qual caminho um passarinho vai seguir. Há apenas o hábito de escutar quando ele pousa”, completa Paulo Moura.

Essa espontaneidade, porém, não dispensa rigorpelo contrário, é vigiada de perto por um princípio que o artista repete como um mantra: desconfiar da palavra que aponta para o sentimento em vez de construí-lo. O mesmo rigor recai sobre o trocadilho, tentação natural para quem vem do humor gráfico, onde o jogo de palavras é ferramenta de ofício. Paulo Moura aceita o trocadilho como legítimo somente se ele revela alguma coisa; quando o som que se repete descobre um sentido que não estava ali antes. Quando o trocadilho é só coincidência sonora, sem descoberta nenhuma por trás, vira fraqueza, ornamento vazio que distrai do poema em vez de sustentá-lo.

Entre o cartunista de 14 anos e o poeta/letrista de hoje, o que atravessa os anos não é o instrumento ou suporte — pena, nanquim, palavra, papel, tela —, mas o ofício de sintetizar, a lapidação incansável e paciente. Paulo Moura passou a vida profissional aprendendo a economia da charge de jornal, prazo curto, espaço curto, ideia que precisa acertar de primeira. A poesia herdou o mesmo treino, só que sem prazo de fechamento — o que, para um autor que trabalha por captura espontânea de imagens, talvez seja a única diferença que realmente importa.

Ilustrador, designer gráfico e editorial, jornalista, escritor, poeta e compositor letrista. Os títulos se acumulam na biografia oficial de Paulo Moura como se fossem carreiras separadas. Quem acompanha seu processo de composição e expressão encontra, por trás de todos eles, o mesmo gesto repetido de prestar atenção ao que pousa, e depois ter a disciplina de não estragá-lo com palavra oca.

Músicas

Imagens / Encartes