Naeno Rocha
Perfil Criativo
NAENO, UM ESPÍRITO DE MUITO TALENTO E BOM GOSTO
Sempre é temeroso dizer que determinada canção é a marca registrada de um autor, sob pena de se resumir todo o seu talento a uma obra-prima, mas convém correr esse risco para se determinar que “Morena” é um claro sinal da grandeza que se pode conferir sem qualquer dúvida a José Nazareno Batista da Rocha, que com seu nome de Nosso Senhor, se autodefiniu no blog Brasil de Dentro, em 2013: “Sou o que não se pode descrever em letras. Um baixo retrato. Um músico, um poeta, um pai, um filho, um espírito. Nunca um Santo.” Mas sobrando em talento, pode-se afirmar quem erro.
Nunca um santo, pode ser porque é fácil dessacralizar as pessoas, mais ainda se elas mesmas assim o fazem, porém, Naeno Rocha é um compositor a quem se pode aplaudir e por quem se pode rezar em agradecimento à sua obra. Há nela a graça do que é bom, belo e perene.
Ele nasceu em São Pedro, vizinha de Angical, a terra de origem de outros três grandes nomes da música do Piauí, os irmãos Clodo, Climério e Clésio Ferreira – que gravaram a clássica canção “Morena”, em 1979, no álbum “Chapada do Corisco”. Depois disso, a música teve mais outras 18 gravações. Haverá de ter mais por clássica que é.
Os versos de “Morena” são certamente alguns dos mais conhecidos da música popular brasileira feita por compositores do Piauí. E são porque essa é uma canção que traz em si uma mensagem universal, porque é uma declaração de amor carregada de sinceridade, intensa, possível em qualquer lugar do mundo, e que, tornada música, se faz ainda mais possível de ser expressa em qualquer língua.
As canções de Naeno têm qualquer coisa de especial, porque na ausência de pretensão e na simplicidade, vão dizendo coisas que todo mundo ouve dentro de si ou fala do mesmo modo trivial. Um exemplo disso é “Amar”, em que ele define o amor como um pêndulo, que puxa a pessoa para um lado para desapoiá-la de outro.
Seriam uma outra autodefinição de Naeno os versos de “Sou como sou”, em que ele diz que é como é, poeta, que vive em linha reta, em paralelo de si mesmo, que vai como o é, sozinho, como um rio que não se encontra, que faz curva no estilo e deságua em sombra? ‘
A poesia musical de Naeno, cheia de beleza que preenche a todos os que se deixam acariciar por ela, foi feita somente por ele ou em parcerias com Salgado Maranhão, William Soares, João Ângelo, Osnir Veríssimo, Glauco Luz, Climério Ferreira, Paulo José Cunha, George Mendes, Júlio Medeiros.
A multiplicidade de encontros e parcerias exibe um compositor diverso, pois o mesmo Naeno que musicou o poema “Pastor amoroso”, de Fernando Pessoa, fez dessa dupla com poeta lusitano quase uma oração, compôs um forró em homenagem a Jackson do Pandeiro, “com “Segura Jackson”, que tem aquela pegada do rei do ritmo.
Economista por formação, fez uma pós-graduação nada poética, sobre análise financeira. Terminou indo trabalhar no Banco do Estado do Piauí e teve a experiência de dirigir o Theatro 4 de Setembro, entre 1991 e 1994. Porém, o que melhor conta de sua vida é a carreira musical iniciada no Grupo Varanda – em 1980.
O grupo foi sua entrada na carreira artística, com um show na companhia de Luiz Gonzaga e em apresentações que lotavam o 4 de Setembro, espetáculos depois levados para São Raimundo Nonato, São João do Piauí, Floriano, Picos, Oeiras, Parnaíba, São Luís do Maranhão e Fortaleza.
A estrada musical de Naeno o levou a gravar quatro CDs, trabalhados com o primor de um artesão: “Interior”, “Entre nós”, “Rindo ou chorando” e “Cor solar”. No segundo desses trabalhos, “Entre nós”, o cantor e compositor reuniu muita gente boa para cantar músicas de inspiração católica, com as participações de Carol Costa, Laurenice França, Grupo Ensaio Vocal, Zemarx, Vavá Ribeiro, Assis Batista, Xangai, com arranjos de Júlio Medeiros, Geraldo Brito, Paulo Aquino, Adelson Viana.
O disco “Cor solar”, também uma beleza esculpida como joia artesanal, teve arranjos de Swamy Júnior e Guilherme Kastrupe, dois dos mais procurados arranjadores e músicos de São Paulo, e a participação muito especial de Zeca Baleiro, Mônica Salmaso, Chico César e do compositor e cantor Bruno Batista, de São Luiz do Maranhão.
Esses dois trabalhos exibem um músico que se preocupa com a qualidade, a beleza e a alma do que faz. Certamente por consciência de que é sempre preciso fazer bem feito aquilo que se faz com o fito de perenidade, possivelmente influenciado por outra condição artística igualmente especial: Naeno é também artesão, produzindo peças de extrema beleza e originalidade, em couro, alumínio, acrílico, madeira e cerâmica.
A habilidade para transformar matéria-prima que aos comuns nada significa em tapetes, luminárias, pratos revestidos em couro, móveis e outros tantos trabalhos, com toda certeza Naeno teve também para talhar poesia musical a partir das palavras e dos ritmos.
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