Mirton

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Perfil Criativo

MIRTON E SUA POLIGAMIA MUSICAL

O nome civil é Egmirton Mouzinho de Paula, mas a arte pela via da música fez dele Mirton de Paula, um compositor que nasceu conectado à arte, experimentalista, que foi se ligando ao mundo musical logo cedo, em casa, com os ouvidos cheios de música popular brasileira que o pai e os irmãos ouviam. Pode ser definido por uma tirada dele mesmo: não é musicalmente monogâmico, tem queda pela poligamia musical, casa-se com todos os estilos. Atualmente se assina apenas Mirton. Não precisa de um nome longo, porque maior é o talento dele.

Com os 20 e poucos anos em que dificuldades e aventuras se impõem na vida das pessoas, em uma tentativa de pagar o cartão de crédito, achou de vender cachorro quente no litoral do Piauí. O negócio não foi bem, mas dessa desventura surgiu “Freak lagarta”, que é a cara uma das mais surpreendentes canções daquilo que Mirton chama de música experimental. Neste caso, quem experimenta fica de boa com o “reaggae” sensacional, surgido da parceria com Galvão Junior.

De modo despretensioso, ele diz que seu gênero é “popular experimental”. É razoável que seja muito mais do que isso – já que a experiência de ouvi-lo é sempre possivel de se tornar prazerosa.

Mirton, com razão, afirma que “Freak lagarta” é um dos seus orgulhos enquanto compositor, “pelo alcance que teve” e esse orgulho se espraia na completude do álbum “Toda Batida”, cuja produção foi módica, “com uma ‘merreca’ da Lei A. Tito Filho e, mesmo assim, foi um trabalho primoroso de horas de estúdio com músicos do time de Zeca Baleiro, Chico César, Zélia Duncan e outros tantos que contribuíram de maneira gigantesca”.

Há razões para Mirton ter orgulho do que fez e do que faz, porque seu álbum seguiu um caminho de êxito, sendo vendido para além do espaço piauiense, dentro e fora do Brasil, o que evidenciou a vitalidade e potência do trabalho do artista.

Uma vitalidade que vem desde suas primeiras incursões pela música, em bandas como Vasos Problemáticos, surgida em 1995. Mirton tinha então 23 anos e mirava a busca de referências da cultura piauiense para se orientar nas criações, o que o levou com os seus parceiros a criar o Projeto “Cuia Head”. Desde cedo, uma busca pelo que nem se sabe o que encontrar pode resultar em bons encontros, em conhecimento que, primeiro se acumula, depois se refina.

O refinamento só se faz com encontros culturais e Mirton junta em si o gosto por “toda a base da música brasileira clássica, experimental e popular, além do rock e a eletrônica”. A resposta muito simples é bem mais sofisticada do que se apresenta, porque reúne tudo ao mesmo tempo em um só lugar. O cadinho de música que ele evidencia na resposta pode percorrer um século ou mais de musicalidade brasileira, mas sem perder de vista a universalidade. Mirton, quando jovem, queria ser roqueiro, “como todo menino”. É possível que atualmente seja mais do que isso, que tenha transcendido o espaço musical do rock para outros amplos espaços de vivências e outras convivências musicais.

Com referências tantas assim, o processo de criação pode ser orientado por múltiplas vertentes, uma delas começada em casa com o pai engenheiro que tocava piano por puro prazer. No caso de Mirton, a diversão fez-se parte da carreira, logo cedo, primeiro com os Vasos Problemáticos, depois com a Banda Luau, que foi um acontecimento pop em Teresina nos anos 1990. Em 1997, fez seu primeiro show autoral, quando lançou “Freak lagarta”, acompanhado pela banda Brigitte Bardot em 97.

Mas Mirton considera que sua carreira, de modo profissional, começa depois dos anos 1990, a partir de 2002, quando concluiu seu primeiro álbum, “Toda Batida”, que fez na gravadora Trama, foi distribuído em todo Brasil e saiu na Europa (Portugal, Inglaterra e França), em cinco discos distribuídos pela gigante musical EMI junto a nomes como Chico Buarque, Caetano, Maria Bethânia, Jorge Benjor, Lenine, Ivete Sangalo e muitos outros artistas. Ele foi longe mesmo, pois cinco anos mais tarde, em 2007, estava tocando no sul da França divulgando seu trabalho fora do país.

O show no Festival de Verão em Montpellier (2007) deu-se antes de outro espetáculo que Mirton fez com orgulho e prazer: uma apresentação em São Paulo, no Sesc Pompéia, dentro de do Projeto Prata da Casa 2005, Bourbon Street Show, com Tita Lima, filha do lendário produtor Liminha, em 2008.

Longe se vai sonhando demais, diz Milton Nascimento, porém se pode ir a longa distância carregando mais do que sonhos. Mirton foi levando suas referências e parcerias, do Piauí, com Machado Junior, Zé Roraima e Rubens; de São Paulo, Márcio Polastro, apenas para ficar nos compositores com os quais mais ou melhor trabalhou.

O trabalho com os parceiros resulta de afinidades, como a de terem influências em comum. Mirton usa uma expressão divertida sobre se ter muito o que ouvir e muito o que tirar do que se ouve: “Eu não padeço de monogamia musical”, por isso é dificil para ele citar as influências que recebeu, mas citar Chico Buarque, Itamar Assumpção e a islandesa Björk – o que pelas diferenças entre os citados confirma que monogamia musical é uma coisa que não dá certo para quem quer se expressar numa linguagem universal.

Neste sentido, o Mirton que levou sua música para longe o faz com bagagem de leituras filosóficas ou de práticas que parecem não harmonizar imediatamente com a música, como o ato de cozinhar. Sim, ele também é criativo na posição de chef de cozinha, profissional que transforma ingredientes em outras coisas, novos sabores e texturas. Tal e qual como se pode fazer com a música, que pode definir o compositor como que tomado por permanente inquietude criativa.

Músicas

Composições Inéditas

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