Magno Aurélio
Perfil Criativo
MAGNO AURÉLIO: “O QUE SEDUZ OS OLHOS MARAVILHA O CORAÇÃO”.
Magno Aurélio de Sá Cardoso nasceu em data normalmente reservada a se reverenciar a memória de quem já partiu, 2 de novembro, Dia de Finados – mas seu destino era a alegria do samba, era produzir música que inundasse o coração das pessoas de bons sentimentos e que, de certo modo, eternizassem vivo um compositor nascido num dia de celebração de memória dos mortos.
Assim, Magno Aurélio fez-se conhecido por pessoas que podem até não lhe saber o nome ou origem, porque uma de suas canções, criadas para a efemeridade de um carnaval, atravessou a fronteira do curto tempo da festa, saiu do lugar para a qual foi idealizada e ganhou o Piauí e a memória dos piauienses.
A canção leva no título o nome do mais importante rio do Estado e tem na origem outro compositor de samba muito conhecido e também já morto, o Peinha do Cavaco.
“Rio Parnaíba, Velho Monge”, criada em 1984 como samba-enredo para o Carnaval de Amarante, ganhou mundo. Foi gravada no disco Cantares por Zezé Fonteles e lindamente relida pelo Ensaio Vocal, com arranjos de outro Aurélio, o Melo, maestro que como seu quase homônimo, trilhou musicalmente essa territorialidade afetiva a que chamamos Piauí. Assi, Magno Aurélio fez de sua declaração de amor ao rio, como também o fez o poeta Da Costa e Silva nos versos de Saudade, cujos versos serenos deram ao rio o codinome de Velho Monge, usado na canção de Magno e Peinha. Assim, o rio duas vezes foi navegado por poesia que se faz eterna.
Bem antes desse amor por um rio feito canção e sucesso, quase 50 anos atrás, Magno transformou outro afeto em música, com a valsa, Flor da manhã, composta para Dona Magnólia, sua mãe, em 1976.
Porém, por óbvio, ele era mesmo do samba. Em 1977, compôs um samba para o bloco Aprontação, João da Cruz, o Rau-Rau. A composição ele assinou com Totonho Cardoso, Assiszão, Beto da Baixa, Pierre Baiano e Luizão. Seria o começo de um longo caminho pelo samba, o carnaval, a alegria de compor para a alegria alheia.
A família dele morava perto da quadra do Sambão, a escola que funcionava na “Baixa da Égua”, o espaço urbano espremido entre a praça do Liceu, o Mercado São José (Mercado Central ou Mercado Velho) e o rio Parnaíba na região central de Teresina. Ali pode ter nascido o amor e suas composições para a escola – que se exprimia em cronicidade teresinense.
Pela Sambão fez “Carlos Said – na boca do povo: o bilinguinguins do Magro de Aço, para o Carnaval de 1987, em Teresina, que sagrou a escola vencedora. Se o respeitado cronista esportivo inventou um verbete (bilinguinguins), Magno assinou com Manoel Messias, o intérprete da escola e Alexandre Rabelo, um samba-enredo campeão.
O samba, sempre ele, levou-o para uma bem-sucedida parceria com Peinha do Cavaco. Na Escola Ziriguidum, fundada e dirigida por Fernando Monteiro, Magno produziu o sambas-enredos “O Piauí está no mapa, sim senhor!” (2000), “A Magia do 7” (2004), “Água fonte da vida” (2005). Com Mozart Monteiro fez “Mulher sublime mãe” (2001).
A música em Magno Aurélio era vida e família. Ela fazia parte de uma família em que o cotidiano estava permeado permanentemente pela musicalidade – tanto que assinou com o irmão Magnaldo a canção “Tipo assim… super herói”, que está em disco do Festival Estudantil de Música Piauiense, no qual também aparece com uma composição solo, “Olho d’água de sangue”. Outra de suas canções, “Pensamentos”, gravada pelo hoje juiz do Trabalho Francisco Bibio, teve arranjo de Tim Fonteles.
Assim, transitando pela música de modo aparentemente despretensioso, Magno Aurélio constituiu uma obra que, posta em linha de tempo, documenta um período importante da vida da cidade, do Estado do Piauí, das coisas, pessoas, paisagem que formam o mosaico do que fomos e somos. Exemplo é sua composição “Domingo na Vila Operária”, que descreve como “um momento de sonho que faz o poeta sonhar pra viver”.
Por isso, é razoável que nas trilhas da vida, se observe o que Magno Aurélio sugere no verso inicial de “Desejo”, dele com Abraão Lincoln, gravada por Ronaldo Bringel em “Geleia Gerou”, uma coletânea em vinil do Primeiro Encontro de Compositores e Intérpretes do Piauí – Projeto “Torquato Neto” – 1984: “O que seduz os olhos maravilha o coração”.
Músicas
Imagens / Encartes