Machado Júnior

Machado Júnior

Perfil Criativo

A MÚSICA DE MACHADO JUNIOR SURGE NUMA CIDADE QUE SE TRANSFORMA

O nome civil José Machado de Morais Junior, mas na música, o cantor e compositor que cresceu na Matinha, zona norte de Teresina, entre peladas e banhos de rio, optou por Machado Junior. Fez-se em começo de vida batendo bola no campo do Pirajá, local que agora abriga o campus Torquato Neto, da Universidade Estadual do Piauí.

A exemplo de muitos teresinenses da sua geração – talvez a última a ter esse tipo de relação mais próxima – teve cedo contato com os rios da cidade, que resultou em uma canção chamada “Feito água”, feita uma parceria com Edvaldo Nascimento, outro compositor urbano de uma Teresina que se expandia urbanamente – tornando-se sempre diferente a cada olhar.

Machado vem dessa cidade, que a seu tempo de criança e adolescente, ainda conservava práticas rurais como a existência das vacarias, dos quintais de passarinho versejados por George Mendes ou ainda as vazantes de onde saíam frutas, verduras e legumes. Mesmo assim, sua música é muito urbana, muito influenciada pelo pop-rock e por sua veia publicitária.

A música popular brasileira que até os anos 1980 tocava no rádio também colocou muitos tijolos na formação de Machado como um artista musical que compõe, toca e canta. Assim, entre as suas influências mais recorrentes na MPB estão Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Djavan.

Neste sentido, seu trabalho tem as influências das musicalidades dos anos 70 e 80 – quando ele era criança e adolescente, mas igualmente de um processo de urbanização em maior velocidade que acompanhou a passagem dele da infância para a idade adulta. A urbanização brasileira acelerada nessas duas décadas também teve impacto sobre a música, seja no consumo, seja na produção, seja nos arranjos e desarranjos musicais dos encontros de pessoas proporcionados por uma expansão urbana de grande monta

Machado já veio ao mundo em um ambiente doméstico muito musical em meio a esse tsunami transformador da paisagem urbana do país. A mãe, baiana de nascimento, mãe tocava piano e a avó materna carregava pela fé o canto católico, que a fez dar para o menino seu primeiro violão. Ela, a avó, percebeu desde cedo que o neto tinha bom ouvido para a música. Estava certa.

Ele vivia em uma casa em que se ouvia música de manhã à noite. A mãe era professora de artes. O filho seguia os passos. No fim de ano, em vez de brinquedos ou coisas assim, usava o dinheiro que obtinha dos pais para comprar os LPs de Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, mas como o pop é a praia dele agora e sempre, o primeiro disco que comprou foi dos Secos e Molhados – o que ocorreu quando Machado era ainda um menino, porque ele nasceu em 1967 e o disco foi gravado em 1973.

A TV, que nos anos 1970 e 1980 moldou muito do gosto médio das pessoas por música, está na raiz da formação de compositor e de publicitário. A produção da teledramaturgia produzia trilhas, que Machado ouvia e nas quais achou inspiração, que também vem de fora do país, na musicalidade universal proporcionada por nomes como Elton John e Paul McCartney

Tocar, compor e cantar foram coisas naturais na vida dele, desde criança, mas sempre foi mais compositor letrista que compositor musicista. Vem de longe essa condição, porque com dez anos, nos cadernos de escola, o Patronato Dom Barreto, lá estava Machado poetizando. Tanto que fez de um livro tristonho, “O feijão e o sonho”, de Orígenes Lessa, um texto musical poético.

A poesia nasce em Machado Junior, descreve ele mesmo, como se fosse ele uma antena receptora dos poemas, como se houvesse transmissões e eles as recebesse com letras quase prontas. Daí considerar que existe uma certa força divina a encaminhar-lhe a poesia. Mas claro que o mundo real, cheio de influências igualmente reais, fazem com que essa antena possa estar mais cheia de energias para receber transmissões. Assim, há influências de poetas e compositores, a começar por quem estava bem próximo, como Naeno, Roraima, Edvaldo Nascimento.  Também teve muita influência dos mineiros do Clube da Esquina, depois do rock nacional, “mas acho que toda canção que ouço, vira uma referência musical para o que eu componho”, explica.

O talento e os dons de Machado começaram a ser despertados cedo pela influência familiar e na adolescência ela já estava em uma carreira, porque pensava a música como parte de sua vida, o que o fez criar coragem para largar o quarto desarrumado na casa da mãe e partir para a montagem de uma banda de rock.

Se era o rock e o pop que ditavam os caminhos iniciais, foi com Edvaldo Nascimento uma parceria mais recorrente, havendo espaços para composições com outros bons parceiros, como Zé Roraima, Danilo Rudah, o recentemente morto poeta William Soares e o jornalista e poeta Francisco Magalhaes, também já falecido.

Dessas relações e influência surgiram composições que Machado enumera entre as que mais gosta: “Musicar o amor”, “Feito água”, (com Edvaldo Nascimento) “Delta de Vênus” (gravada com sua amiga Duda Di) e “Soul música”, que, conforme ele mesmo descreve, “traz uma mistura de pop e baião, com batidas de zabumba e beats eletrônico formando uma célula que representa a música do Nordeste e também a universal.”

Trabalhos compostos e interpretados estão em dois álbuns – “Brasileiro”, de 2006 e “Kamikaze Solidão”, de 2020, além do EP “Machado Junior” e muitos singles. Ele trabalha em um terceiro álbum, a ser lançado em 2026 sob o título de “Toda poesia que havia”, para a celebração de seus 40 anos de carreira na música.

Álbuns são sempre mais definitivos que shows, mas esses também enchem Machado de orgulho, que cita apresentações em Brasília, São Paulo e Fortaleza, porém, foram seus shows no Festival Piauí Pop, organizado por Marcus Peixoto, que deixaram uma energia inesgotável na memória do músico.

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