Luizão Paiva

Luizão Paiva

Perfil Criativo

LUIZÃO PAIVA, UM JAZZMAN NASCIDO EM TERESINA QUE GANHOU O MUNDO

O maestro Rocha Sousa define Luizão Paiva com uma expressão que pode parecer lugar-comum (‘um músico excepcional’), mas que muito bem se aplica à definição desse pianista piauiense se a excepção do termo for bem radical: excepcionalidade é a qualidade de quem é fora do comum, do normal ou corriqueiro; é quem está acima do padrão ou da qualidade; que excede em virtude.

É evidente que cabe a definição simples, mas não simplista, tampouco simplória, para Luizão Paiva. Rocha Sousa sabe disso porque relaciona a essa capacidade superior ao disco “Avoante”, que o músico dedicou a sua avó Adalgisa Paiva, musicista, o que nos oferece pista de que o virtuosismo do músico deriva também do aporte genético e familiar.

Arranjador talentoso, Luizão é indiretamente uma vítima da violência com que os regimes autoritários tratam a cultura. Em 1975, ele compôs parte da trilha da novela “Roque Santeiro”, originalmente escrita por Dias Gomes e que não foi ao ar por ordem da censura da ditadura militar implantada 11 anos antes, em 1964. Essa trilha, assim como os 15 primeiros capítulos da novela, perdeu-se materialmente. Pouco se sabe ou se fala desse tema, ainda a ser mais explorado histórica e artisticamente. Mas se pode falar e muito do muito que realizou Luizão Paiva, que fez seu contrato inicial com o piano ainda criança, aos seis anos de idade.

A música surge no pianista, arranjador e compositor como uma consequência das boas escolhas familiares. A avó, Adalgisa, maestrina, teve aulas com Heitor Villa-Lobos. Foi ela quem insistiu que o neto deveria deixar o Piauí para estudar em São Paulo, onde o Colégio Arquidiocesano tinha uma cultura musical forte. O pai fê-lo estudar Engenharia, mas ele parou no terceiro ano, no Rio.

A música corria em seu sangue e estava em seu coração. Era paixão, que o levou em sequência à Escola de Música Pró-Arte, no Rio, à Berklee College of Music, em Boston, da qual saiu com bacharelado (“Professional Music”) em composição, arranjo e performance. Nos Estados Unidos deu os primeiros passos para uma carreira profissional, apresentando-se em jazz clubs. Também lá recebeu por mérito, o prêmio “Lennie Johnson” da Berklee College Of Music.

A bagagem acadêmica impulsionou o talento que se mostrava em Luizão desde criança, fazendo-o não somente estar numa produção do que havia de melhor na teledramaturgia brasileira, mas também de alinhar-se com o que revolucionava a música no país na década de 1970, como instrumentista nos musicais “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, com direção de Dori Caymmi; e “Brasileiro, Profissão Esperança”, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, sob direção de Bibi Ferreira.

Luizão estava, então, em um circuito musical que o fazia acompanhar alguns dos nomes mais relevantes da música brasileira, entre os quais João Bosco, Nana Caymmi, Moraes Moreira, Carmem Costa, Nora Nei e Jamelão. Com a família Caymmi, fez temporada no “Blue Note“, em New York e na Europa.

Porém, a raiz que deixou fincada no Piauí o fez voltar após três décadas distante do Estado, em 2002, para um projeto grandioso, a criação da Escola de Música Adalgisa Paiva, na Universidade Federal do Piauí, que emergiu como espaço escolar musical livre em que as aulas de diversos instrumentos e técnicas musicais (piano, teclado, sanfona, guitarra, baixo, violino, violas, violoncelo, flauta, saxofone, trompete, trombone, composição, arranjo etc.), são ministradas por mestres instrumentistas práticos.

O ensino da música pela prática é certamente uma ideia que está muito viva na cultura musical de Luizão Paiva, porque sua formação acadêmica ocorreu em meio à sua profissionalização. Assim, quando chegava para as aulas com professores como Homero Magalhães e Hélio Sena, tomado pelo sono perdido em apresentações noturnas de véspera, a música barroca saía com uma roupagem jazzística. Os professores o reprendiam por tocar a música sacrossanta de Bach como um pianista de jazz, Luizão nem piscava em resposta: “Mas eu sou um pianista de jazz” e assim se fez um músico de jazz, para nossa sorte e a de tanta gente.

O longo percurso de volta fê-lo evidenciar uma humildade que o torna maior – grande resultante de talento, estudo, dedicação, capacidade de compreender a música de modo total e sistêmico. Isso se percebe na experiência com músicos negros, quando o funk começava a deixar os nichos musicais para ganhar espaços maiores. Era convidado a tocar com esses músicos, uma deferência deles que queriam de Luizão o som de suas raízes nordestinas, o baião. Juntar funk dos guetos negros norte-americanos com o baião do Nordeste rural é uma dessas ousadias maravilhosas que a Luizão Paiva fez.

Assim, o jazzman nascido em Teresina e que ganhou o mundo fez bem mais que se tornar um pianista de jazz, um arranjador com uma pegada musica própria. Ele toca, arranja, compõe levado a esse trabalho criativo por suas múltiplas influências brasileiras, as quais o levaram a ensinar por muitos anos, no Conservatório de Roterdã, na Holanda, o que se identifica entre os holandeses como “brazilian jazz”, experiência que na volta ao Piauí o fez abraçar a ideia da Escola de Música Adalgisa Paiva, projeto dele e do ex-governador Alberto Silva, que, consolidado, está formando bons músicos, o que tem o condão de ser um esforço bem-sucedido contra a mediocridade que Luizão enxerga hoje na música brasileira como bem cultural de consumo de massa.

Luizão Paiva segue em um espaço pessoal de discrição, trabalhando, produzindo bem, fazendo trabalhos fora de Teresina, no eixo Rio São Paulo e com projeto de digitalizar sua obra, dando mais perenidade a ela, composta por pelo menos 300 músicas, entre arranjos, composições jazzistas e composições para orquestra.

 

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