Júlio Medeiros

Júlio Medeiros

Perfil Criativo

JÚLIO MEDEIROS E A SONORIDADE UNIVERSAL NORDESTINA QUE ELE FAZ VIRAR JAZZ

Jazz Fole é a banda que Júlio Medeiros se faz acompanhar e que acompanha. O nome diz muito do que é esse músico do Piauí, universal, mas com seus pés fincados no que só aparentemente é simplicidade, no fole, nos aboios com sua tristeza lindamente melódica. Dele mesmo, que tem na música instrumental um sentido de vida – sem embargo de trabalhar na vocalidade, como no começo de seus passos musicais quando, com o Grupo Varanda, uma banda com vocal, colocou duas músicas instrumentais no show  por compreender a importância da sonoridade não cantada.

Júlio é arquiteto e músico – às vezes mais arquiteto, às vezes mais músico, mas sempre em um diálogo entre essas duas artes de fazer bonito. Essa simbiose poderá ser percebida em seu disco “Som D’Arquitetura” e ainda em “Memória – Jazz no Fole”, seu quinto álbum, fazendo dele parte do que podemos definir como o crescente arquipélago da música instrumental brasileira, que toma para si alguém que é apenas aparentemente ilha isolada.

O músico, compositor e arquiteto passou parte da infância em Novo Nilo, um povoado na zona rural de União, centenária cidade a 60 km de Teresina. Memórias afetivas e experiências concorreram para a construção de sua personalidade musical, moldada muito cedo, com sua primeira experiência de educação musical. A irmã Fernanda era aluna do violonista Silizinho, violonista, cantor e compositor que faz parte das memórias de muitos músicos de Teresina, a partir dos anos 1960. As aulas da irmã lhe serviram para trilhar o caminho da música e o fizeram baixista.

Não parou mais e foi pela musicalidade seguindo passos de gente grande – para crescer ao ponto deles. Inicialmente, prestou atenção no “Pessoal do Ceará”, aquele grupo de compositores ousados que, sob influência do filósofo Augusto Pontes, ganhou o Brasil, com nomes fundamentais na música do país na segunda metade do século XX, como Amelinha, Belchior, Fagner, Fausto Nilo, Petrúcio Maia, Ednardo, Rodger Rogério e Maria Elisete Moraes de Oliveira, a Téti.

O pernambucano Quinteto Violado, com sua música universal feita no Nordeste e que ganhou o mundo, também influenciou Júlio, que “pernambucanamente” também bebeu na fonte de Luiz Gonzaga e de Dominguinhos, este um mestre que elevou sua música a uma condição jazzística bem-casada com a ideia de Jazz Fole que dá nome à banda de Júlio. Aliás, sobre Dominguinhos, cabe lembrar uma composição que homenageia o mestre, com as assinaturas de Júlio Medeiros e Glauco Luz, “Para Seu Domingos”, que “com seu jeito tão modesto tem talento de maestro”. E bote talento nisso, seja do mestre, seja dos seguidores que ele justa homenagem prestaram.

Júlio também traz em si matéria-prima musical de alta qualidade em seu gosto por Egberto Gismonti, em quem percebe a brasilidade do Nordeste, tão presente em Gilberto Gil e Caetano Veloso. Tom Jobim e Chico Buarque, em suas universalidades, Hermeto Pascoal, em sua inventividade desmedida, e Djavan, em seu som sem fronteiras, são outros que gravitam no universo inspirador que Júlio Medeiros traz em si.

Júlio Medeiros é um admirador de carteirinha de dois músicos que coloca na condição de gênios: Dominguinhos e Gilberto Gil. Hermeto Pascoal e Arthur Maia também se inserem nessa mesma seara. Entre os piauienses, enumera sua admiração dedicada de fã a nomes como Naeno, Geraldo Brito, Edvaldo Nascimento, Durvalino Couto, Glauco Luz, Aurélio Melo e da nova geração instrumental, lista os violonistas Anderson Nóbrega e Josué Costa e os guitarristas Lívio Nascimento e Paulo Dantas.

Nesse percurso, ouvindo esses compositores, foi compondo em parcerias com Naeno, os irmãos Climério e Clodo Ferreira, Rubens Costa, Zé Piau e depois Glauco Luz, compositor que também trafega no jazz. Tem também parcerias com Lívio Nascimento

O processo criativo é também uma frequente reinvenção – o que quer dizer não fazer a mesma coisa, mas refazê-la e assim fazê-la diferente, inédita, no que o compositor chama de um processo natural de crescimento. Crescer exige estar entre aqueles que a pessoa vê grande e neste sentido, Júlio Medeiros diz que seu crescimento musical se torna firme quando começa a tocar com aqueles que considera grandes: Zé Piau, André Luís, Moreira, Anderson Nóbrega, Josué Costa, Bebeto, Sandro Haick, Toninho Horta, Luizão Paiva, Cristiano Pinho, Adelson Viana, Dominguinhos, Arthur Maia. Atualmente, com o Jazz no Fole tem as companhias dos grandes Lívio Nascimento, Ivan Silva e Gilson Fernandes.

Para além de músico, Júlio Medeiros teve o condão de trabalhar para espalhar arte musical, sendo um dos criadores/idealizadores/incentivadores de eventos como o Festival de Jazz e Blues de Pedro II, hoje na praça do jazz; o ⁠Artes de Março no Teresina Shopping; o ⁠Barra Jazz em Barra Grande; o ⁠Delta Jazz em Parnaíba; a ⁠Festa do Baião em União e o ⁠São João em Novo Nilo, povoado onde passou a infância.

Músicas

Imagens / Encartes