Irmãos Fonteles

Irmãos Fonteles

Perfil Criativo

HÁ UM CERTO QUÊ DE DNA NA MUSICALIDADE DOS IRMÃOS FONTELES 

Os Fonteles são uma família musical que transitou entre o Piauí e o Ceará, produziu música e músicos da melhor qualidade, fez-se muito além dos lugares físicos onde sua música brotou primeiro. Ana, cantora, que muito mais cedo do que o desejável, partiu; Zezé, também cantora, Tim, grande arranjador, e (Gilberto) Jabuti, baixista. Ana segue como a voz mais perene dos Fonteles; Jabuti caminha firme na trilha de uma musicalidade universal.

A música foi sempre uma constante na vida deles – sem embaraços a que seguissem suas carreiras acadêmicas, o que os levou a estudarem todos na Universidade Federal do Ceará, nos anos 1970, e, ainda assim, a manterem as raízes fincadas em Parnaíba, onde a família se fixou quando os pais vieram de Barras.

Registra Dalwton Moura, do jornal Diário do Nordeste, a trajetória dessa família musical piauiense, que começa bem antes de eles se fixarem em Parnaíba. A origem deles é em Barras, reconhecidamente uma das cidades de maior tradição musical no Piauí. Numeroso, os Fonteles contavam-se em nove irmãos, filhos de Manuel Aldemar Ferreira Fonteles e Maria do Espírito Santo Miranda.

Dos nove filhos, Gilberto (Jabuti) e Manuel Júnior (Tim) se se tornariam conhecidos, na cena musical de Fortaleza, para onde partiram ainda jovens para buscar formação acadêmica. As irmãs Zezé e Ana Fonteles seguiram essa mesma trilha, adotando a capital cearense ou sendo por ela adotadas entre os fins dos anos 1970 e começo dos 80 do século XX.

Eles chegaram aos poucos. Primeiro, o irmão mais velho, Alcione, foi para cursar Engenharia. Nazaré chegou depois para estudar Medicina; seguida por Zezé, que fez Geologia; Rita, que se graduou em Agronomia; Jabuti, que se fez engenheiro químico, e Tim, que cursou Engenharia de Pesca – e diz se arrepende de ter deixado a faculdade a seis meses de se formar.

Tim Fonteles, porém, formou-se um multi-instrumentista e produtor musical bastante requisitado na capital cearense, onde produziu e arranjou pelo menos 60 discos – um número maior se considerando sua atuação também em trabalhos produzidos no Piauí.

É imperativo lembrar que a família Fonteles, para além da musicalidade muito aguçada de Tim, Zezé, Jabuti e Ana, teve um foco em educação. Todos foram para Fortaleza com o propósito primeiro de estudar, que era uma obstinação do pai, cearense de Acaraú. A mãe também tinha esse olhar acurado. Cuidava dos filhos, da casa, ajudava o marido para garantir os filhos tivessem a melhor educação possível. Deu certo, porque legaram homens e mulheres graduados ou bem instruídos e músicos de alta qualidade.

Mas havia um certo quê de DNA na musicalidade dos Fonteles. A avó materna cantava e tocava; algumas tias cantavam muito bem – ou seja, o lado musical leva o sobrenome Miranda, da mãe. Alcione, o irmão mais velho, foi quem levou Jabuti a dedilhar as primeiras notas. Os outros irmãos teriam também contatos com a música no ambiente familiar.

Tim Fonteles nasceu depois de Ana e os dois compartilhavam uma cumplicidade maior. O irmão lembra dela em sua juventude faceira e cheia de vida. Essa cumplicidade era certamente uma trama a unir os irmãos Fonteles.

Em Fortaleza habitaram um apartamento comprado pelo pai na rua Assunção, edifício Xenofonte – quem sabe se o prédio com esse nome de filósofo grego fosse um aviso do destino a lhes falar sobre o fato de música combinar com filosofia. Seja como for, os Fonteles iam chegando em fileira, para prestar vestibular e ingressar na Universidade Federal do Ceará.

Ana Fonteles chegou em 1978, um ano antes do irmão Tim. Concluiu lá o ensino médio e ingressou na Faculdade de Economia – que nunca exerceu como profissão. Tim, que se arrepende de não ter se formado engenheiro de pesca, afirma que a irmã cantora teve o bom senso de concluir a faculdade, mesmo tendo a música como mister e modo de vida.

Com 20 anos, Ana se tornaria o que sempre será, a cantora Ana Fonteles. Recém-chegada a Fortaleza, Ana participou de um evento referencial para a história da música cearense, o Massafeira Livre, ideia do cantor e compositor Ednardo e do filósofo, poeta, compositor e publicitário Augusto Pontes, o guru do “Pessoal do Ceará

O Massafeira Livre reuniu dezenas de artistas de diversas áreas, com a música dando o tom em espetáculos no secular Theatro José de Alencar, de 15 a 18 de março de 1979. Esse evento gerou a “descoberta” de Patativa do Assaré pela capital cearense; o LP duplo, com 24 faixas e um intercâmbio de músicos, entre os quais estavam três dos irmãos Fonteles: Jabuti, Zezé e Ana Fonteles, que teve destaque no show – cantando “Vidraça”, de Calé Alencar, Fausto Nilo e Alano Freitas – e no disco, interpretando, ao lado de Ednardo, “O sol é que é o quente”, de Alano.

Tim, que não estava com os irmãos no Massafeira Livre, lembra que quando foi para gravar o LP resultante do evento, no Rio, Ana tinha voz muito potente e a Zezé, muito colocada. Segundo narrou para Dalwton Moura, do jornal Diário do Nordeste, Toninho Barbosa, que era o técnico de som, falou: “Zezé engole o microfone e Ana Fonteles vai cantar lá no meio da rua”.

Ana seguia estudando Economia, porém seu destino era a música e ela sempre esteve certa disso. Tim afirma que estava em seu sangue o ato de cantar – e o ambiente em que se inseria ajudava, porque não havia a massificação musical que se seguiria nas décadas seguintes. A música chegava diretamente às pessoas, pela voz do intérprete e Ana Fonteles se encaixava nessa condição com altas qualidades. E lá foi ela pela capital cearense se apresentar em locais como a Concha Acústica da UFC, o Teatro Universitário, o Anfiteatro da Volta da Jurema e o Teatro da Emcetur – conhecidos pontos de efervescência sonora.

Jabuti, Ana, Tim e Zezé são frutos de uma família com um necessário foco obsessivo em educação – daí mesmo fora de suas carreiras acadêmicas realizarem bem a música que escolheram como caminho profissional. Na Universidade, sem descuidar de seus estudos acadêmicos, escolheram a arte musical – o que lhes deu visibilidade e percepção de outros.

Tim lembra que Fortaleza era um espaço comum e acolhedor para eles, porque havia musicalidade espalhada, com apresentações ao vivo por toda a cidade – nada profissional, mas que abria caminhos.

Jabubi, admirado desde sempre, assim como Ana, voaram para espaços distantes.

Ana, reconhecida por sua versatilidade musical, gravou participações em discos tão heterogêneos quanto bem-realizados, entre os quais “Melhor que Mato Verde”, de Petrúcio Maia; “Brilho”, de Stélio do Valle; “Liberato”, de Alano e Francis Valle; “Cria do Mundo”, de Jabuti e “Geleia Gerou – 1º Encontro de Compositores e intérpretes do Piauí – Projeto Torquato Neto” (1984), no qual interpretou “Pedra do Sal”, letra de Zezé Fonteles e música de Felipe Cordeiro, compositor cearense.

O primeiro disco solo da cantora só viria em 1990, de forma independente. O LP “Ana Fonteles” registrou a diversidade musical da cantora. Ela passeou entre baiões, maxixes, tango e blues em canções de Eugênio Leandro, Osvald Barroso, Amaro Pena, Fausto Nilo e Geraldo Azevedo. O disco teve participações de Sivuca, Gilson Peranzzetta, Maurício Einhorn, Sebastião Tapajós e do grupo Boca Livre.

Em 1995, Ana Fonteles mudou-se para Nova York, onde passou a se dividir entre a música e o trabalho em uma agência de turismo. Apresentava-se em bares e locais frequentados pelos apreciadores de música brasileira nos Estados Unidos. Mas como é do Piauí-Ceará, as raízes se impuseram e ela manteve apresentações em Fortaleza quando em férias na cidade.

Tinha o projeto de gravar um álbum orientado para a musicalidade nordestina, universalizada por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, que ela redescobriu em suas andanças pelos Estados Unidos e Europa. Morreu antes disso, em julho de 2004, aos 45 anos de idade, vítima de um câncer no pâncreas.

O irmão Jabuti honrou o legado da irmã cúmplice e parceira. Mantém uma carreira internacional, que começa no ambiente musical de Fortaleza, onde conheceu os amigos músicos Amaro Vianna e Felipe Cordeiro, que foi casado com Ana Fonteles e se tornou um recorrente parceiro musical de Tim e Zezé Fonteles, com quem compôs “Pedra do Sal”.

Jabuti vive há quase 30 anos na Alemanha, mas até mudar-se para lá, fundou uma banda e com ela fez, em 1989, o álbum “Cria do mundo”, seu primeiro disco, em que tem quatro músicas feitas em parceria com a irmã Zezé Fonteles, duas com Amaro Penna e uma com Felipe Cordeiro.

No mesmo ano que gravou seu primeiro disco, veio para Teresina para ser diretor da Banda Ônix, criada pelo Grupo Claudino e que reuniu músicos de grande talento, entre os quais Zé Roraima e a cantora cearense Kátia Freitas. Por cinco anos, a banda viajou pelo Brasil e nesse tempo gravou dois CDs.

Em 1994, Jabuti foi para Paris e após seis meses se estabeleceu em Berlim. Lá conheceu Celso Baquil e Ivan Ferraro, com os quais fez parceria musical. Também produziu um álbum com o produtor discográfico alemão Wolfgang Loos, apresentou-se em teatros, clubes e festivais e formou o “Ajaduo”, com o músico e amigo Abrão Dutra, com quem se apresentou na Itália, Áustria, Espanha, República Tcheca, Polônia e Bulgária.

Em 2003, produzido pela JR Productions, lançou o CD “Ajaduo – Brasil forever”, muito bem aceito pelo público europeu, que segue sendo seu foco principal, sem perder de vista as raízes com Parnaíba e Fortaleza.

Os Irmãos Fonteles – Jabuti, Zezé, Tim e Ana Fonteles – inscrevem-se em um rol de músicos do Piauí-Ceará definidos por seus talentos, o fato reconfortante de serem de uma mesma família, talentosa e dedicada à educação. Sobre os irmãos Fonteles, Felipe Cordeiro diz que são músicos e intérpretes talentosos, definindo-os mesmo como geniais.

Outro que define os irmãos Fonteles é o cantor e produtor cultural Ricardo Black que os conheceu logo que chegaram a Fortaleza, nos anos 1980. “Conheci todos eles nos lugares de música. Era tiete do Jabuti, achava fantástico, genial, ter uma família cantante. Eram poucas por aqui. Os Fonteles foram super adotados pela cidade, até hoje são pessoas que consideramos como nascidas aqui. E para mim a Ana era a mais brilhante dos Fonteles. Sempre fui um fã dela, sempre admirei a forma de ela interpretar. Era uma grande intérprete, e em pouco tempo se tornou a queridinha da turma toda”.

Músicas

Composições Inéditas

Irmãos Fonteles

Reggae Boi - Jabuti Fonteles

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Portal da Beleza - Jabuti Fonteles

Imagens / Encartes