Geraldo Brito
Perfil Criativo
GERALDO BRITO, O POETA DOS ACORDES, TEM NA MÚSICA SEU MAIS PERFEITO HABITAT
É bem difícil que algum álbum gravado no Piauí entre as décadas de 1970, do século XX, e as duas primeiras décadas do atual século não tenha o dedo – ou melhor, os dedos – de Geraldo Brito, um músico universal que preferiu a quietude de uma cidade grande do interior, Teresina.
A universalidade musical de Geraldo Carvalho de Brito é fruto de um cadinho de influências que torna sua obra, mesmo enraizada no solo do Piauí, possível de ser compreendida e apreciada em qualquer canto do planeta. Há universalidade musical nesse poeta dos acordes. É algo perceptível em sua frequente parceria com Glauco Luz, com quem compôs “Minha música”, em que os dois dizem que a música deles é para mover montanhas e abrir caminhos nas águas do mar.
Ele abriu caminhos na música feita na capital do Piauí nos últimos 50 anos, que sempre terá um pouco de Geraldo Brito, porque esse violonista, guitarrista e compositor tanto trabalhou, quanto criou e inspirou ao menos duas gerações de artistas musicais, a sua própria agora chegando ou passando dos 70 anos, e os músicos que vieram a seguir.
Geraldo está presente seja porque faz uma música inspiradora, seja também porque desde sempre ensinou, dividindo o que sabe para multiplicar saberes musicais. É professor na Escola de Música Possidônio Queiroz.
O ato de ensinar – que é muito feito de ouvir – vem de longe. No começo de sua vida, Geraldo Brito fez de sua casa uma espécie de “clube da esquina” de Teresina. E com tanta gente boa que com ele pôr o pé na profissão de tocar um instrumento e de cantar, contou todas essas histórias da música urbana de Teresina em um livro que trafega de 1960 até os dias atuais.
Geraldo já veio ao mundo num lugar com nome sonoramente poético e musical, o povoado Soledade, em Timon, a cidade maranhense separada ou juntada a Teresina pelas águas do rio Parnaíba.
Com sete anos de idade, um violão de plástico deixou de ser brinquedo para ser sua entrada no mundo da música. Tocou tanto no pequeno violão que se perderam todas as cordas, restando uma, com a qual ele ainda assim tirava um som.
Autodidata, aprendeu praticamente sozinho a tocar, observando pessoas próximas e vizinhos. As aulas profissionais foram iniciadas algum tempo depois e serviram de complemento. Na adolescência, fez parte de alguns conjuntos musicais e se envolveu ainda mais com o processo de criação e composição algo que já era sua paixão e seria sua profissão ao longo dos anos.
Em 1967, ainda adolescente, começou a participar em bandas locais e cinco anos mais tarde já fazia suas primeiras composições musicais, o que o levou a participar de seus primeiros festivais de música. Seguia aprendendo a música a partir do que ouvia no rádio – uma recorrência entre artistas musicais do interior do Brasil.
O rádio, como escola, levou Geraldo a ter contato com uma variação de gêneros musicais, não havendo um só ritmo para seu gosto variado. Gosta e faz bossa nova, samba, o samba-canção. Seu tocar é jazzístico, mas tem espaço para o baião. Ultimamente, renovado pela necessidade curiosa de experimentar, tem feito muito bumba-meu-boi, “um ritmo que nasceu aqui no Piauí, porque a música folclórica diz no seu verso “manda buscar outro lá no Piauí, uma manifestação cultural que vem do século XIX, quando o Piauí era um exportador de boi e de carne bovina”, explica.
O passeio musical por ritmos diversos fazem dele um compositor que “recebe” a obra, quase que de modo mediúnico. Geraldo diz que muitas vezes “a música todinha” lhe é entregue, pois “chega até mim, baixa em mim como se fosse um santo, como se eu fosse um médium”. Mas nem sempre foi assim, no começo de seu caminho pela composição musical, recebia letras (não mediunicamente, frise-se) e ia musicando ou fazia o inverso: ir compondo musicalmente para depois ser letrado pelos amigos.
Com ou sem mediunidade musical, Geraldo precisou canalizar seu talento para unir-se ao talento inspirador de outros. Assim, mirou-se inicialmente em grandes compositores anteriores ao seu nascimento, como aqueles que fizeram a época de ouro do choro. Isso deu a ele régua e compasso para um trabalho cheio de beleza e arte, influenciado também por standard jazz norte-americano, pela música brasileira mais moderna, como a bossa nova, mas também pela música de raiz nordestina, como o baião de Gonzaga e da geração nordestina que se seguiu ao rei sertanejo, entre os quais cita Geraldo Azevedo e Alceu Valença.
Evidentemente, que começando a compor nos anos 1960, teve influência do tropicalismo de Torquato Neto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinam etc. Porém, lembra que uma quantidade tamanha de compositores ouvidos tanto inspira quanto molda um compositor, que precisa ou deve escolher sua própria trilha sonora. Foi o que fez Geraldo ao moldar a si mesmo, fazendo música à sua maneira, seja só, seja com as muitas parcerias pela vida.
As parcerias fizeram-no encontrar no começo da carreira o Fred Maia, poeta oeirense atualmente vivendo em Portugal; Antônio Holanda, já falecido cantor e compositor parnaibano. Depois, fez música com Viriato Campelo, Durvalino Couto e depois com o Glauco Luz, parceiro com quem se afinou e por isso mesmo com quem mais tem trabalhos. Outro parceiro importante foi Cruz Neto.
Na trajetória de compor, há ainda o espaço de caminhada junto aos nomes que o inspiram. Geraldo cita entre compositores que admira e o inspiram aqueles que define como quarteto fantástico de sua vida: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Jobim, “pilares de boa parte do meu trabalho”, nos quais busca um retorno, segue a trilha estética, acompanha a maneira como compõem. Tudo isso faz com que tenha deles muito em suas canções, que não têm a ver com a deles, mas seguem uma estrutura próxima do que eles fazem.
Houve no correr dos anos muita gente andando junto com Geraldo, mas o começo foi por ele mesmo, nos anos 1970, com o grupo chamado Miau – Movimento de Integração Artístico Universitário, que fez o show lítero-musical “Nortristeresina”, uma palavra “torquatiana”, que unia estudantes da Universidade Federal do Piauí, em 1974, para uma apresentação em um festival em Londrina, no Paraná. Foi a primeira expediência de palco de Geraldo. A partir de então começou a tocar, a mostrar suas músicas.
Surgiria mais tarde o Grupo Calçada, em 1976. Dois anos depois, iniciava uma carreira solo que o levou a apresentações em Brasília, depois, no Rio, onde morou algum tempo, fazendo apresentações no Teatro de Arena, palco de espetáculos do show “Opinião”, com João do Vale, Nara Leão, Maria Bethânia e de “coisas maravilhosas”, como seu encontro com Braguinha, o grande João de Barro, letrista de “Carinhoso” e de tantas músicas inovadoras como “Yes, nós temos banana”.
Em Teresina, no ano de 1976, com o grupo Calçada, fez os shows “Claridade”, “Fruto da Terra”, e “Canto amordaçado”. Depois, fez apresentações solo com o show “Boca de espreita” (1978) e “Geraldo Brito em concerto” (1979). Em 1981, fez o espetáculo mais polêmico, com banda Sol Nascente: “Geraldo Brito relativamente louco”. Em 1984,“Figurante amor” e três anos depois, em 1987, “Um lance de dardos”, seguindo-se “Outros tons” (1990) e “Simplesmente” (1995).
Admirador e admirado, Geraldo gosta de lembrar de seus trabalhos no Rio, de seus dois álbuns, “Mar Acatou”, de 2001 e “A dança das tulipas”, de 2019, esse mais voltado para a música instrumental, o seu mais perfeito “habitat musical”.
Em “Mar Acatou”, fez parcerias com Felipe Cordeiro, de Fortaleza, em “Meio certo”, gravada pelo Lô Borges. Nesse mesmo disco teve a participação do de outro nome do “Clube da Esquina”, o Toninho Horta. Mais recentemente, o paraibano Chico César gravou “Que diabo é jazz”, divertida composição em parceria com Glauco Luz, e uma cantora de Brasília, a Márcia Tauil gravou “Quem disse que não”, dele e de Cliff Villar. O violonista Filó Machado também gravou “Ritos mágicos” e o Tico Moraes, de Brasília, gravou “O cantor de jazz”.
Como sugere um texto da revista Revestrés publicado em junho de 2019, Geraldo segue produzindo e pulsando ao seu ritmo, mas sem perder o batuque, necessário para a história da música popular brasileira produzida no estado do Piauí. Assim, pode-se dizer com grande grau de certeza que é bem universal um artista que, em parceria com a Paulo José Cunha, musicalizou que “a dor mais forte é a que dá sorte ao coração”, verso perene de “Mágica Serpente”, uma das muitas obras em que os dedos de Geraldo Brito se imiscuíram para produzir beleza que acaricia os ouvidos.
Músicas
Composições Inéditas
Buarque-se - Geraldo Brito
Choro das Rosas - Geraldo Brito
Cunhã - Geraldo Brito
Estação Final - Geraldo Brito
Loba Boba - Geraldo Brito
Luna - Geraldo Brito
Natureza Morta - Geraldo Brito
No Tom - Geraldo Brito
Outdoor - Geraldo Brito
Panela Furada - Geraldo Brito
Rio das Magoas - Geraldo Brito
Tonalidade - Geraldo Brito
Urbe - Geraldo Brito
Imagens / Encartes