George Mendes
Perfil Criativo
O SONHO DE TOCAR, COMPOR, CANTAR, MOSTRAR.
George Henrique de Araújo Mendes cresceu em um ambienta familiar em que a cultura e a artes estavam presentes no quotidiano da casa. A música fazia parte dessa rotina, em todos os seus ritmos. A dança, que é a música personificada em movimentos humanos, também era parte da rotina doméstica da família do compositor, antes economista e publicitário em razão de suas escolhas musicais.
“Não nasci em uma família musical, na acepção mais firme do termo, mas tive algumas sortes”, brinca George ao lembrar que o pai desafinado, que nada tocava, era um consumidor de música e pé de valsa – daí ter em casa um som potente, de alta fidelidade, como se pronunciava nos anos 1960, para ouvir seus inúmeros de big bands, boleros, os sambas-canções e até mesmo fados. Ou seja, George se descobriu no mundo da música ouvindo desde orquestras como as de Glenn Miller e Tommy Dorsey até a voz única e cheia de potência de Amália Rodrigues.
Como gostava de dança e sempre que podia estava bailando com a sua esposa, mãe de George, havia uma musicalidade recorrente na casa, sempre uma música alegre. Neste ambiente doméstico, as radiolas (ou vitrolas) sempre se renovavam para melhor audição e a coleção de discos de vinil crescia ano após ano.
O pai tinha ciúme da vitrola, daquele tipo que tocava “automaticamente”, um móvel na sala, com as caixas de som embutidas. Assim, para preservá-la, deu a George Mendes a sua própria vitrola, portátil, de som menos potente (e menos fiel), o que também tinha por objetivo dissimular o menino de mexer nos preciosos discos do pai, Francisco Mendes, radialista na Rádio Clube e primeiro presidente da Rádio Pioneira de Teresina.
George não se deu por vencido com a vitrola portátil que o pai lhe presenteou com o fito de impedi-lo de usar a radiola de alta fidelidade e mexer nos discos do pai. Mexia pela curiosidade dos que querem trilhar um caminho desconhecido, também responsável pelo encantamento de que foi tomado quando conheceu a discoteca da Rádio Pioneira de Teresina, quando o pai dirigia a emissora.
A formação musical dele, como de tantos outros de sua geração, deu-se pelo Rádio, veículo que fazia a música chegar a todos os lugares. Havia em George a vantagem do contato com a Discoteca da Rádio Pioneira. “O meu ouvido musical foi moldado pelo rádio”, diz.
O ouvido moldado para a música não bastava, era preciso transpirar no aprendizado. Aos 12 anos de idade George pediu um violão à mãe, Marlene. Ela comprou o mais bonito que encontrou disponível – que evidentemente não era o mais adequado, tampouco o melhor. “Era verde com cinza, pintado, o que é ruim porque não produz um som que preste”, diz George, rindo porque a mãe quis dar-lhe o melhor violão e o fez levada pela beleza que enxergou no instrumento.
Mesmo com o violão bonito demais e bom de menos, George resolveu aprender por conta própria. Logo, porém, contou com a ajuda do violonista Silizinho, que dava aulas particulares de violão. Percorria a cidade de bicicleta, oferecendo seus serviços, de casa em casa. Com isso, os primeiros acordes, quatro se muito, logo foram aprendidos por George Mendes. Isso era o bastante para o som que ele gostava e estava presente na vida de todo o pessoal de sua idade, a música da Jovem Guarda.
Como já tinha um certo domínio do violão, resolveu que queria aprender piano. Teve aulas com Dourila Carvalho, professora presente na vida de muitas pessoas da geração dele. Mas depois de dois meses, achou tudo muito enfadonho e largou de mão o piano. Preferiu aprender sozinho dissonâncias. O piano muito certinho de Dourila Carvalho não era a praia dele.
Aprender dissonâncias era como poder compreender todos aqueles movimentos ocorrendo ao mesmo tempo na música brasileira, a Bossa Nova, a Jovem Guarda, a Tropicália. Foi seu olhar/ouvir sobre o movimento tropicalista que levou George Mendes a perceber que não se pode enclausurar a música, porque inexistem fronteiras. Assim, também descobriu o gosto por compor, sem se fixar em um estilo único.
O processo de compor para ele, assim, passou a ser feito sem um carimbo rítmico ou harmônico, levando-o a fazer composições impregnado pela diversidade de ritmos – e de influências, que começam com o gosto musical do pai e claramente do primo famoso, Torquato Neto.
As vivências na Teresina dos anos 1970 levou a conhecer o primeiro parceiro de composição, Paulo Batista, que com ele compôs a primeira e outras muitas canções. Reunido no grupo “Calçada”, fortaleceu a amizade com Geraldo Brito, Cruz Neto e Ronaldo Bringel – reunidos pela afinidade musical, mas também pela proximidade física, já que todos eram moradores da região central da cidade.
O “Grupo Calçada” era uma reunião de jovens músicos que além de Cruz, Geraldo, George e Paulo Batista, tinha Almir Marques( Baixo), Carlinhos Menezes( Bateria), Teotônio( Sax), Wellington Veras (Flauta) e Alícia, pianista. Havia muita ousadia neles, que se juntaram para dois shows (“Calçada” e “Fruto da Terra”), apresentados no Theatro 4 de Setembro, no Parque Piauí, bairro da zona sul de Teresina, e na Universidade Federal do Piauí.
Depois do Grupo Calçada, George ainda produziu dois shows em que se apresentava junto com o parceiro Paulo Batista: o Sensatez e o Primeiras Estrelas. A partir desses dois shows consolidou uma importante parceria musical com o poeta e jornalista Paulo José Cunha, que se tornou o parceiro mais constante.
Apesar de não serem músicos profissionais, George fez shows como manda o figurino, ou seja, com figurino em si para as apresentações; iluminação e som apropriados; arranjo profissional. “Faço parte de uma geração que cedo aprendeu a subir no palco, mas não a divulgar bem o que fazia”, diz George.
Assim, também foi cedo que ele entendeu que compor exige mais transpiração que inspiração, agradando-lhe a ideia de que é sempre bom encontrar a melodia que caiba bem na letra, como encaixe que que busca. Assim, sempre buscou fazer a música com as palavras, despertadas nele pelo primo Paulo José Cunha, sete anos mais velho, que sobre George tinha certa ascendência. Com Paulo José compôs “Quintal de passarinhos”, vencedora do I Festival de Música Popular Brasileira do Estado do Piauí, em 1980, defendida pelo Grupo Varanda.
Porém, antes que a música lhe rendesse essa glória, a realidade se impôs mais que as nossas vontades e George trilhou uma carreira estudantil para profissionalizar-se não na música, mas quem sabe na academia. Sonhava ser professor. Começou estudando Ciências Econômicas no Rio de Janeiro, terminando a graduação Pontifícia Universidade Católica de Salvador, na Bahia, para onde foi pela amizade do pai com o então cardeal primaz do Brasil, dom Avelar Brandão Vilela (1912-1986), que na passagem por Teresina (1955-1971), fundou a Rádio Pioneira.
A passagem por Salvador serviu-lhe para ter uma boa formação acadêmica, mas reforçou em George a admiração que já sentia por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Capinam.
Na volta a Teresina, no começo dos anos 1980, quando compõe “Quintal de Passarinhos” com Paulo José Cunha, retoma os contatos com o mundo artístico-musicalda cidade e traz consigo uma tarefa pessoal de guarda e preservação de memória e da obra de Torquato Neto, o primo morto no começo dos anos 1970.
Economista, trabalhando no sistema estadual público de planejamento, George resolveu montar um estúdio de gravação. Como as agências de publicidade e propaganda não lhe apresentavam demandas, terminou criando uma agência, na qual a música estava sempre transversalmente ligada ao trabalho publicitário. Nessa condição, tornou ainda mais forte o encantamento por Torquato Neto, 14 anos mais velho que ele, o que o impossibilitou um contato pessoal mais próximo, face à diferença de idade, mas não foi impeditivo a que George Mendes mantivesse viva a chama de inspiração tropicalista, de tal sorte que sua composição maior se faz na potência de garantir a inspiração torquatiana à gerações futuras.
George Mendes já produziu um variado e numeroso repertório de canções com parceiros diferentes: Paulo José Cunha, Paulo Batista, Ana Luiza Lobo, João CarlosOliveira, Cruz Neto, Geraldo Brito, Naeno Rocha, Pierre Baiano, Ronaldo Bringel, Durvalino Couto, Viriato Campelo.
Não escreveu letras de música, dedicando-se a musicar poemas de amigos. Destacou-se de alguma maneira numa geração de compositores, músicos, intérpretes no Piauí, cantando e tocando seu violão popular.
Venceu o I Festival de Música Popular Brasileira no Piauí, o FMPBEPI, com uma canção que se tornou um clássico da geração: Quintal de Passarinhos, com Paulo José Cunha, em 1980.
Subiu ao palco em shows e apresentações musicais, sendo também o produtor executivo e diretor conceitual. Destaque para Sensatez ( com Paulo Batista) em 1981 e Primeiras Estrelas ( com Paulo Batista), em 1982.
Esteve cantando em Teresina, Fortaleza, Brasília, São Luiz, Picos, Parnaíba, Floriano e Campo Maior.
Produziu e gravou três CD´s com músicas autorais: Fonte ( 2010 ), Poetai, Poetas, Poesia( 2011 a 2012), Canções de Bem-Querer ( 2019)
Músicas
Composições Inéditas
Todo Ar - George Mendes e Mayra Cunha
Pezinho de Chulé - George Mendes
Travessia - George Mendes e Viriato Campelo
Resedá - George Mendes & Paulo José Cunha
Mãos entrelaçadas - George Mendes e Paulo José Cunha
Ao Natural - George Mendes e Ronaldo Bringel
Desilusão Sideral - George Mendes e Paulo José Cunha
Fada Cigana - George Mendes e Paulo Batista
Novas Cores - George Mendes e Pierre Bahiano
Sob o Sol - George Mendes e Cruz Neto
Imagens / Encartes