Fifi Bezerra

Fifi Bezerra

Perfil Criativo

FIFI BEZERRA E A ESCOLHA DE UMA MUSICALIDADE PRETA

Fifi Bezerra é o nome carinhoso de um compositor que carrega frescor em si mesmo, já que fisicamente Feliciano José Bezerra Filho parece tomado da fonte da juventude, que sabe porque, por iniciativa própria, temporã, aos 18 anos começou a descobrir-se músico com violão popular e mesclou os caminhos da música com uma carreira acadêmica e discreta militância política, sempre presente no seu trabalho ao trazer para suas letras o necessário debate sobre a importância cultural do povo preto.

A musicalidade de Fifi nasce por talento, claro, mas muito por trabalho porque admite que não se expandiu satisfatoriamente na arte musical, no sentido de estudo aplicado, do desenvolvimento preciso do instrumento, o que lhe teria estabelecido limites técnicos em relação à harmonia, por exemplo.

Porém, onde sobra a limitação técnica surge a intuição como guia, fazendo com que as melodias cheguem até ele, com as soluções harmônicas adequadas. Com a humildade que é caraterística de quem sabe fazer, mas admite ter limitações (o que ocorre a todos, mas nem todos admitem ocorrer, como faz o compositor), Fifi afirma que às vezes precisa recorrer a um “músico de verdade” para melhorar minhas harmonias. Importante destacar que de verdade ele é um músico na acepção mais fiel do termo.

Se para muitos compositores, alguns deles, parceiros, surgem trabalhos prontos, com letra e música, por um viés que não se explica, como que por mágica ou inspiração divina, para Fifi Bezerra a habilidade com as palavras o faz chegar primeiro à letra e somente depois à música. Mas tudo com esforço, com dedicação, com uma prática construtiva que exige dele estar concentrado naquilo que faz.

Há que ter-se bagagem para essa obra tijolo por tijolo em desenho lógico como na “construção buarqueana” e bem por isso a música popular brasileira é seu gênero musical por excelência, com inspiração em muitos compositores – Gilberto Gil puxando a extensa lista.

Desde antes de trilhar pela música, Gil sempre foi o artista completo que levou Fifi Bezerra a querer fazer canções. Caetano Veloso e João Gilberto, além de Luís Gonzaga, completam um quarteto de influências nordestinas e universais no rol de compositores favoritos de Fifi Bezerra. Nessa relação cabem ainda os nomes de Jorge Benjor e de Milton Nascimento, com seus mis tons geniais.

A terra redonda permite que Fifi tenha tido influências externas do pop, do rock e do reggae, este último ritmo muito presente em tantos outros compositores da sua geração, porque espalhou-se com hits pelo mundo no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, quando Fifi iniciava seus caminhos musicais. Por isso, ele diz que não se pode falar de influências pontuais quanto tudo que é música é de interesse comum de quem faz música.

Fazer música é tarefa dele desde cedo, iniciada 1981, aos 20 anos, quando participou do Festival de Música Popular Brasileira do Estado do Piauí, organizado pela TV Rádio Clube, com a canção “Alvorecer”, que ficou entre as finalistas. Dali em diante, seguiu ousando e inovando, por escolha de valorizar das raízes africanas, vencendo duas edições do Festival Estudantil de Música Popular, organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), nos anos de 1985, com as músicas “Mãe Inaê”, que trouxe o Ijexá e inaugurou no Piauí o segmento de música afro-brasileira; e em 1986, com o reggae “Coisa de Nego”, em parceria minha com o escritor Cineas Santos. Essa canção tem importância muito maior porque seu título virou nome de uma organização social que lançou luzes sobre o movimento afro-brasileiro no Piauí.

Fifi diz que as duas canções lhe trazem orgulho de tê-las feito e que seguem como fazem parte, inevitavelmente, de meu repertório e entoadas lindamente por vários grupos afro-piauienses.

A canção “Coisa de Nego” sinaliza parcerias com músicos e letristas afinados com suas ideias, o que inclui o irmão Assis Bezerra, além de Emerson Boy, Machado Junior, Zé Roraima e Mirton, Porém, a maioria de seus trabalhos são solos, resultantes de reflexões pessoais, que o levaram, por exemplo, a dar um tempo na carreira artística em 1994 para morar em São Paulo e cuidar de uma carreira acadêmica, o quer resultou em mestrado e doutorado – impulsionando sua atividade docente na UFPI.

O músico abraça a academia, mas o palco certamente habita o seu coração e assim, mesmo num espaço de estudo em que pouco sobra para o exercício pessoal da arte, Fifi manteve apresentações diletantes durante a pós-graduação – o que certamente não deve ser sido fardo para quem formou três bandas e participou de incontáveis shows.

 

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