Fernando Holanda
Perfil Criativo
O CARTÃO DE VISITA DE FERNANDO HOLANDA: “EU SOU MÚSICO”
Quando morreu, aos 68 anos, em 8 de dezembro de 2020, Fernando José Holanda Mendes era um artista com 52 anos de carreira na música, que teve seu começo em bandas como Os Atômicos e Os Apaches, que ele liderou e marcaram a cena musical de sua Parnaíba natal entre o final dos anos 1960 e o começo dos anos 1980.
A música o acompanhou desde os primeiros anos de vida. A poesia, também. Fernando Holanda, como se assinava, era filho do poeta Raimundo Fonseca Mendes, que ocupou a cadeira nº 5 da Academia Parnaibana de Letras. E certamente vem dessa verve herdada do pai um verso como “te amo e não há nada mais a dizer/o mundo inteiro para quando estou com você”, presente em sua canção “De qualquer jeito”, que está no CD “Recomeço”.
Era a família dele voltada para a arte. Fernando, seu irmão Fonseca Junior, tocavam juntos em Os Apaches. Fonseca fez uma carreira bem-sucedida em Teresina nos anos 1980 e seguiu para Fortaleza, onde segue como músico muito respeitado.
Fernando animou festas nos dois conjuntos (como antes se chamavam as bandas) a partir de 1975, quando parte dos clubes sociais de Parnaíba começava a perder importância. Ainda assim, lá estava ele no palco dos clubes, seja com Os Apaches, seja com Os Atômicos, banda liderada pelo cantor e radialista Reginaldo Mendes.
As apresentações em festas dançantes fizeram de Fernando Holanda um músico do dia-a-dia, da noite, de apresentar-se para os parnaibanos em bares, restaurantes, churrascarias. Um dos seus mais frequentes acompanhantes era Dominguinhos do Sax, com quem personificava um dueto conhecido da Parnaiba.
Em 1975, quando foi morar em Parnaíba, Geraldo Brito conheceu Fernando, um ano antes de ele ingressar na Universidade Federal do Piauí para cursar Economia. Na época, tocava em O Apaches, que fundou e que Geraldo destaca como um dos melhores grupos musicais do Piauí. “Isso me fez ter logo um contato com ele”, conta Geraldo sobre o encontro com o amigo Fernando.
Em 1976, Fernando Holanda iniciou o curso de Economia e criou com Geraldo Brito um grupo de música da Universidade Federal do Piauí no campus de Parnaíba, juntamente com o Robert Ferreira, seu irmão Fonseca Júnior e Alberto Lúcio de Carvalho, o Pituka, morto em 2014, aos 64 anos.
Entre 1979 e 1981, Fernando morou em Teresina, integrando-se aos músicos e compositores da capital do Piauí. Nessa janela de tempo, fez o seu primeiro show autoral, “Canto solto no ar”, no Theatro 4 de Setembro. Depois, retornou a Parnaíba, onde manteve sua produção artística em paralelo ao trabalho como economista e militante político ligado ao partido brizolista, o PDT.
Com a formação de um músico que tocou em bailes nos clubes sociais de Parnaíba, Fernando deixou poucas gravações. Há três registros gravados quando ainda ele vivia, o álbum coletivo “Parnaíba 150 anos” (1994); o CD “Recomeço”, de 2016, com participação especial da banda Samboêmios; “A canção de Fernando Holanda” (2020) e um trabalho póstumo, “Águas claras”, de 2023.
A música sempre estava junto a ele, a ponto de Fernando ter tido uma loja, “Musical”, funcionando no centro histórico de Parnaíba, dedicada à comercialização de instrumentos musicais – incluindo guitarras, que ele tocava e com a qual influenciou muitas pessoas. Em “Os Apaches”, tocava uma Stratosonic, da Giannini com captadores importados da Fender.
Guitarrista nos anos 1970, Fernando evidentemente que era influenciado pelo rock, mas o romântico, ao gosto médio de quem ia nas festas dançantes para ouvir e dançar ao som de música pop. Contudo, para além disso, tinha grande admiração por um trio que formava como importantes para sua música: Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento, “um trio além do horizonte musical”, em suas próprias palavras. Torquato Neto também estava nessa lista de influências, junto com Edu Lobo, que assina “Pra dizer adeus”, canção que Fernando gostava muito.
Era músico, essencialmente músico. O filho, Fábio, no dia da morte do pai, narrou que o Fernando se apresentava com um cartão de visitas pessoal e intransferível: “Eu sou músico. Era esse o cartão de visita do meu pai. Músico, compositor, cantor, poeta, boêmio… A música o deixava realizado e era o que ele sabia fazer de melhor. Irreverente, tranquilo, simples, teimoso. Ele tinha lado, bandeira e opinião. Hoje, ele partiu, mas deixou suas músicas, sua poesia e sua história como legado”. Um deles, o gosto que o filho tem por tocar violão.
Fernando era essencialmente um bom homem. Dois meses antes de morrer, em 8 de outubro de 2020, escreveu que tinha ouvido o CD “Mar Acatou”, de Geraldo Brito, que descreveu como “um passeio pela MPB, de primeira qualidade, que vai desde o baião, passando por blues, canções, jazz, baladas e maracatu”. Informou a Geraldo que tinha novas composições, a quem iria mostrar em breve. O legado de Fernando, como disse seu filho Fábio, segue vivo.
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