Clodo, Climério e Clésio
Perfil Criativo
CLODO, CLIMÉRIO E CLÉSIO FERREIRA, UM TRIO FRATERNO-MUSICAL ÚNICO NO BRASIL
Um perfil dos irmãos piauienses Clodomir (Clodo), Climério e Clésio Ferreira certamente melhor caberia em uma enciclopédia, tal o tamanho e vulto da obra deles. Esses compositores nascidos em Angical, no Médio Parnaíba Piauiense (Climério e Clésio) e Teresina (Clodo), fizeram de Brasília lugar de morada, criação e pista de onde se lançaram em grandes voos pela música brasileira. Juntos, produziram mais de 150 canções, gravadas por eles mesmos e por outros nomes de peso no cenário musical brasileiro. Nesse espaço de qualidades pessoas e intransferíveis formaram o que pode ser o único trio de irmãos músicos, compositores, cantores e poetas da Música Popular Brasileira.
Climério é o mais velho dos Ferreiras, nascido em 1943 e o único ainda vivo. Clésio, que nasceu em 1944, partiu em 2010, e o mais novo deles, Clodo, de 1951, faleceu em 2024. Foram para Brasília ainda jovens: Climério chegou aos 18, em 1962; Clésio aos 17, em 1963 e Clodo com somente 13 anos de idade, ainda o adolescente, em 1964, quando os pais Matias e Alice e as irmãs seguiram a trilha aberta pelos filhos mais velhos. Iriam consolidar em Brasília, ainda em construção, a musicalidade que levaram do Piauí com eles.
Eles têm uma vastidão de músicas gravadas, no que provavelmente, frise-se, é o único trio de compositores reunidos por laços familiares, afinidade musical, relações próximas com os mesmos artistas – tanto que Clodo, Clésio e Climério frequentemente assinaram canções diferentes com parceiros que se repetem – caso de Dominguinhos, que fez músicas com Climério e Clésio. Fagner e Ednardo, amigos dos três, também compuseram com os irmãos Ferreira.
Clodo, o mais novo, teve uma carreira fora de Brasília, em São Paulo, mas graças a um erro de apresentação em programa de TV, reuniu-se aos irmãos em um trio, que encantou meio mundo e o Brasil por inteiro.
Nara Leão (1942-1989), fã declarada dos compositores, juntou-se a Fausto Nilo, outro amigo e parceiro dos irmãos Ferreira, para fazer uma música, que, sim, pode resumir os perfis dele, de modo muito poético e belo.
A canção “Cli-Clê-Clô”, gravada por Nara em seu 1980, define cada um deles na perspectiva da cantora e compositora e de Fausto, um arquiteto das palavras e de notas musicais. Nos versos iniciais dessa canção tão simples e despretensiosa, bela por isso mesmo, lá está um desenho dos Irmãos Ferreira:
Cli, eu penso em quimera
Clô, acabado, fechado
Clê, passarinho quero-quero
Cli, um claro, um clarão
Cli, clivagem, clima seco
Lua nova, a origem de tudo
Claro, clarão da Lua
Pôr-do-Sol, coragem, partida
Nestes dois versos se pode ver a longa caminhada dos irmãos Ferreira desde sua saída do Piauí, nos anos 1960, quando foram para Brasília, cruzando as divisas do estado para buscar novos horizontes. Fizeram isso com maestria, destacando-se no cenário musical brasileiro. Primeiro, compondo cada um a seu tempo. Depois, reunidos pelo acaso ou descuido do destino durante o programa “Mambembe – a vez dos novos” (1976, TV Bandeirantes, São Paulo).
Os três foram anunciados Clodo, Climério e Clésio e, embora compusessem separadamente, o apresentador do programa entendeu que formavam um trio. Isso terminou por fazer nascer a tripla e fraterna parceria (embora parceria seja de par, não trio ímpar) que resultou em êxitos como “Revelação” (de Clodo e Clésio), gravada por Raimundo Fagner, em 1977 – uma canção eterna, sucessivamente regravada por Simone, Marina, Wando, Razão Brasileira e Engenheiros do Havaí.
Fagner, que também gravou “Cebola cortada”, esta de Clodo com Petrúcio Maia, foi o mais frequente cantor a interpretar as composições dos irmãos Ferreira – de quem depois seria idealizador de discos. Abriu um caminho para o repertório deles, seguido por Nara leão, Tim Maia e Os Cariocas, Simone, MPB-4, Elba Ramalho, Amelinha, Zizi Possi, Fafá de Belém, Marlui Miranda, Ângela Maria, Ednardo e Dominguinhos, este autor de 17 composições com Climério, sempre lembrado como letrista da maioria das composições do trio.
O engano na apresentação dos irmãos como um trio que não existia, mas que precipitou a união deles para compor em dupla ou em trio, também os levou a fazer o primeiro trabalho conjunto: o disco “São Piauí”, álbum produzido pelo compositor cearense Ednardo, com a participação de Robertinho de Recife, Heraldo do Monte, Amelinha e Roberto Sion. A capa levou assinatura de Fausto Nilo.
Esse disco diz muito do que viria pela frente: uma sequência de composições com roupa clássica para jamais envelhecer. Nesse disco, totalmente autoral, todas as canções são dos irmãos Ferreira, sendo seis assinadas por eles mesmos e quatro com parceiros externos.
A canção-título “São Piauí” resulta de parceria entre Climério e Bê, num disco que incluiu canções que se tornaram clássicos como “Cebola Cortada” (Clodo e Petrúcio Maia), que seria sucessivamente gravada por Fagner, no LP “Orós” (1977); pelo MPB-4, no LP “Bons tempos, hein?” (1979); pelo cantor baiano Carlos Pita, no LP “Coração de Índio” (1981); pelo parceiro Petrúcio Maia, no LP “Melhor que mato verde” (1980); e por Milton Nascimento, que incluiu a canção em um show sete anos atrás junto com o MPB-4.
“São Piauí” certamente foi um meio de desbravar o Brasil a partir de um Piauí profundo, já que apresenta ao país a visão dos Irmãos Ferreira para sua terra, em composições como “Palha de arroz” (Climério); “Cantiga” (Clodo e Clésio) e “Conflito” (Climério e Petrúcio Maia).
Depois de “São Piauí”, os irmãos Ferreiras gravariam ainda os LPs “Chapada do Corisco”, em 1979, que trouxe no repertório duas canções que se tornaram grandes sucessos em todo o país – “Revelação”, de Clodo e Clésio, e “Enquanto engoma a calça”, de Climério e Ednardo; “Ferreira”, de 1981, idealizado por Fagner, com direção de estúdio de Dominguinhos e que trazia no repertório “Por um triz”, depois gravada por Nara Leão.
Em 1989, eles voltam a gravar um LP, desta vez “Profissão do sonho”, em que Clodo, Clésio e Climério assinam “Silêncio agrário”, “Olinda”, “Tiro certeiro”, “Canção de esquina”, “Boi divino”, “Distraída”, “Túnel do tempo”, “Dilúvio” e “Aruanã”. Nesse trabalho, “Beijo insosso” é de Clodo com Zeca Bahia.
Clodo também compôs com Zeca Bahia uma canção chamada “Velho demais”, em 1977, que foi incluída na trilha sonora da novela “Sem lenço, sem documento” (Rede Globo), na interpretação do grupo Placa Luminosa, uma das bandas que nos anos 1980 seria uma das protagonistas da explosão do rock nacional.
Climério foi um recorrente parceiro de Dominguinhos, com quem assina pelo menos 17 canções. Os dois fizeram na década de 1980 “Querubim”, incluída em 1991 na compilação “Forró etc. – Music of the Brazilian Nordest”, produzida por David Byrne para o mercado internacional. Esse álbum compunha o terceiro volume da série “Brazil Classics”.
Naquele mesmo ano, o LP “Clodo, Climério e Clésio” registrou novas canções dos irmãos Ferreira: “Revoada”, “Corda bamba”, “Elo perdido”, “Outra cor” (adaptação de adágio de Albinoni), “Balé”, “Brasília”, “Morada” e “Conterrâneos”, esta última composta para o filme “Conterrâneos velhos de guerra”, de Vladimir Carvalho. O disco se completava com músicas de Clodo em parceria com Dominguinhos (“Queira ou não queira”), e com Clésio (“Flor do coqueiro/Pita”). O álbum contou ainda com a participação de Dominguinhos, na faixa “Conterrâneos”, e da flautista Odette Ernest Dias, nas faixas “Outra cor” e “Morada”.
Em 1993, voltariam os irmãos Ferreira a gravar um LP, “Afinidade” em que gravaram “Quando a palavra nasce”, “Saudades do paraíso”, “Vitalidade”, “Borboleta branca”, “Todas as cores”, “Quintais” e a canção-título. As outras faixas foram assinadas por Clésio com Fagner (“Corda de aço”), por Climério e Antônio Adolfo (“Paraíba do Sul” e por Dominguinhos e Clésio (“Outra vez”).
“Vitalidade foi o último trabalho em que os irmãos Ferreiras se apresentavam como um trio que compunha e cantava. Cada um foi cuidar de suas coisas e de seus trabalhos – que não eram poucos e todos bem relevantes.
É possível que se defina bem quem são os irmãos Ferreira pela fala do autor de uma biografia deles, o jornalista Severino Francisco: “Clodo era um intelectual público, participou de ações educativas na política interna da UnB e na Secretaria de Educação do DF”, conta Severino. “Embora fosse o que mais gostasse da rua, pois frequentava os bares e foi um dos criadores do bloco de frevo Galinho de Brasília, Clésio era silencioso, misterioso, afetuoso e secreto. Um amigo o definiu como um nordestino movido à bondade e à poesia. E Climério é um habitante do silêncio, recluso, mas que abre uma janela para o mundo no Facebook.” Assumidamente mais poeta do que músico, Climério publica um poema por dia na rede social. “Ele poderia fazer uma estrada de Brasília a Angical, onde nasceu, só com os poemas que escreveu. Ele é o nosso Buda candango, Buda do Piauí, Buda da Asa Norte”.
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