Aurélio Melo

Aurélio Melo

Perfil Criativo

AURÉLIO MELO, O MAESTRO QUE REFINA TUDO O QUE TOCA

Música no Piauí poderia ter muitos nomes e sobrenomes, dada a multiplicidade de talentos nascidos ou que fizeram desta terra solo fértil para expandir suas criações e trabalhos no vasto mundo da arte. Entretanto, se fosse possivel hierarquizar esses nomes e sobrenomes da música no Estado, certamente estaria nas primeiras linhas deste rol o nome de Aurélio Melo, maestro, arranjador, compositor, músico, enfim, de pessoa que se conduz pela vida com a leveza de quem há décadas conduz a Orquestra Sinfônica de Teresina e deixou suas digitais gravadas em 40 álbuns, alguns dos quais já se inscrevem como parte de uma história musical piauiense em que ele é personagem, fonte e inspiração.

Segundo descrevem em artigo opes pesquisadores Ednardo Monteiro Gonzaga do Monti Gislene Danielle de Carvalho, o maestro da Orquestra Sinfônica de Teresina (OST), Raimundo Aurélio de Melo, “não teve formação acadêmica em música (regência), mas isso não significa que ele não tenha procurado o conhecimento musical por meio de estudo e orientação de artistas que perpassaram sua trajetória”.

Aurélio é um regente acurado, que caminhou pela música sempre de forma literal mesmo, porque foi musicógrafo na Universidade Federal do Piauí – o que lhe deu para, além do dom musical, a capacidade de escrever de modo físico a música. Formou-se pela própria UFPI antes de ser contratado para o ofício de copiar a bico de pena as partituras – um aprendizado que fez dele o que é: alguém que traz a música em completude.

A arte de copiar e analisar as partituras fê-lo encontrar dois nomes, do tipo gigantes, sobre os ombros dos quais certamente viu mais longe, para usar uma citação atribuída a Isaac Newton: os professores Emmanuel Coelho (1935-2015), maestro e violinista mineiro, e Reginaldo Carvalho, fundador da Escola de Música de Teresina, nos anos 1970.

Se um monge copista fortalecia sua fé no ofício permanente de reproduzir textos sagrados no Medievo, Aurélio Melo fortaleceu seus laços de conhecimento com a música ao exercer seu ofício de musicógrafo, reproduzindo partituras a bico de pena.

Tem-se então, um músico nascido do rigor da disciplina, que se configurou em compositor, que mede as notas para melhor harmonia e cadência, e um arranjador capaz de saber exatamente onde cada coisa deve estar no espaço infinito da criação musical.

Com isso, fez brilhar seu grande talento para que tivessem mais luminosidade os trabalhos para os quais fez arranjos, muito relevadores também dos compositores que admira e que o inspiram, como se pode perceber nos discos do Ensaio Vocal cantando Chico Buarque, Luiz Gonzaga e Torquato Neto; na “Cantata Gonzaguiana”, e em “Prelúdios do Rei”, com algumas das mais destacadas composições de Roberto Carlos.

Trilhar sobre as obras de compositores tanto consagrados como populares, não afastou Aurélio de nomes não muito conhecidos, porém ricos em seus talentos próprios – e ele é exemplo disso, ao valorizar o som autoral, com trabalhos vigorosos, entre os quais se destacam o álbum “Suíte de Terreiro”, do Grupo Candeia, e o álbum inaugural do Ensaio Vocal, “Canto do povo de um lugar”, que tem uma mistura de compositores de fora e de dentro do Piauí, o que estabelece uma régua de equilíbrio no nível dos trabalhos apresentados.

Aurélio refina os trabalhos autorais, como ficou mais do que evidente no álbum “A cara alegre do Piauí”. Mais do que isso, uniu gerações de compositores, porque no trabalho vai-se encontrar o poeta Cineas Santos, dois músicos mais jovens, Wilker Sales e Felipe Vilarinho, e nomes mais conhecidos como Clodo Ferreira, Gilvan Santos e o mais frequente parceiro de composição do maestro, Glauco Luz.

Suas parcerias incluem ainda Zé Rodrigues, desde os tempos do icônico disco “Suíte de Terreiro”, do Grupo Candeia; o poeta William Soares e o dramaturgo José Afonso Lima, ambos falecidos em 2025. Aliás, sobre esse seu pioneiro disco – “Suíte de Terreiro” –, é sempre interessante notar que ali já se poderia perceber a amplitude musical de Aurélio, desde a formação do Grupo Candeia (Zé Rodrigues, Netinho da Flauta e Paulo Aquino) até o repertório perene, que incluiu duas composições de Aurélio com Zé Rodrigues, “Lua a lua”, que tem um certo quê de música medieval; e “Guerreira”, que tem tantas camadas musicais que é difícil definir seu ritmo tão encantador quanto dançante.

Ao percorrer todos os caminhos da música, com experiências de escrita, de condução, composição e arranjo, Aurélio Melo vestiu-se de autoridade legitimada na experiência e no estudo para propor e fazer com grande sucesso concertos de música erudita e popular, assim como atuou com o Coral da Universidade Federal do Piauí e na “Cantata Gonzagueana”, que saiu dos limites de Teresina porque a música que se faz bem, muito mais bem faz a quem ouve.

 

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